A Convergência dos extremos Ideológicos na Sociedade Moderna em um cenário global cada vez

A Lógica da Ideologia e a Distinção Amigo-Inimigo

A Tendência Humana à Justificativa

A desconexão da vida real, muitas vezes imposta pela sobrecarga de informações e pela complexidade das questões contemporâneas, impulsiona os indivíduos a operações mentais complexas. Em vez de aceitar a realidade em sua multifacetada complexidade, há uma inclinação natural em buscar justificativas para crenças e ações já estabelecidas. Essa postura, enraizada na dificuldade de admitir equívocos, leva à adesão a narrativas ideológicas que ressoam com preconcepções. O marketing político e social, ciente dessa vulnerabilidade, atua na construção de subterfúgios que solidificam a percepção de um ‘nós’ virtuoso contra um ‘eles’ intrinsecamente falho, aprofundando as divisões sociais e políticas e minando as bases para o entendimento mútuo.

O Anti-Sistema e a Desconfiança

Um traço distintivo de muitas ideologias, apesar de suas diferenças fundamentais, é a premissa de uma visão intrinsecamente negativa do caráter humano. Essa perspectiva sugere a necessidade de ‘esclarecer’ a população, frequentemente retratada como alienada de sua condição política e vítima de conspirações orquestradas por elites. Nesse contexto, os ideólogos frequentemente se posicionam como ‘antissistema’, denunciando complôs globais de ‘donos do mundo’ ou poderes ocultos que manipulariam a sociedade. A desconfiança emerge, então, como um motor crucial da política moderna, alimentando uma mentalidade de cerco e confronto, onde a lealdade a um grupo exige a demonização e a rejeição categórica do outro, fragmentando a coesão social.

A Visão de Carl Schmitt sobre o Conflito Político

Essa lógica de antagonismo encontra eco nas reflexões do jurista e filósofo político Carl Schmitt. Em sua obra, especialmente em escritos como os reunidos em “Le categorie del politico”, Schmitt argumenta que a essência do político reside na distinção fundamental entre amigo e inimigo. Para ele, a oposição política é a mais intensa e extrema de todas, e qualquer outra forma de oposição se torna política na medida em que se aproxima desse ponto-chave do agrupamento baseado nos conceitos de amigo e inimigo. A primazia da distinção amigo-inimigo indica o grau de coesão ou fragmentação de uma sociedade. Quanto maior a polarização, menor a probabilidade de ações serem pautadas pelo bem comum e, inversamente, maior a influência de interesses setoriais e privados na condução dos assuntos públicos, resultando em uma governação fragmentada e ineficaz.

Do Leviatã de Hobbes às Ondas do Messianismo Político

A Natureza Humana e o Imperativo da Ordem

A percepção da natureza humana como intrinsecamente conflituosa não é nova. A máxima “o homem é o lobo do homem” (homo homini lupus), popularizada por Thomas Hobbes em “Leviatã”, tem suas raízes na “Comédia dos Burros” de Plauto e reflete uma visão cética sobre a capacidade de coexistência pacífica sem um poder coercitivo central. Hobbes, que viveu a turbulência da Guerra Civil Inglesa, contrapôs-se a pensadores como Aristóteles, argumentando que o ser humano é, por natureza, antissocial, e não comunitário. A solução, para ele, seria a organização de um poder soberano forte, capaz de “intimidar os homens”, substituindo o estado de guerra de todos contra todos por uma coexistência pacífica através do “reino da razão” (imperium rationis), onde a autoridade central reagruparia socialmente amigos e inimigos sob a égide da lei e da ordem, garantindo a segurança e a estabilidade.

As Promessas e os Perigos das Utopias no Século XX

A busca por uma ordem que transcenda a fragilidade humana e elimine o conflito alimentou muitos dos regimes políticos do século XX. Estes, embora frequentemente se apresentassem sob a roupagem da “ciência” e da racionalidade, guardavam um misticismo profético, prometendo o triunfo do bem sobre o mal em uma batalha final. Essa “aventura prometeica” visava diluir o indivíduo particular em um todo universal — o Estado, a Nação, a Classe —, transformando-o na nova Terra Prometida pela qual se deveria estar disposto a sacrificar a própria vida. O messianismo político, com sua visão grandiosa e frequentemente totalitária, justificou inúmeros espetáculos macabros e regimes abomináveis ao longo da história recente, buscando uma utopia social que, em sua concretização, muitas vezes resultou em distopia e severas violações dos direitos humanos.

Todorov e as “Ondas” da Imposição Ideológica

O estudioso Tzvetan Todorov, em “Inimigos Íntimos da Democracia”, identificou três “ondas” principais desse messianismo ideológico que tentou impor visões de mundo de forma coercitiva. A primeira manifestou-se nas Guerras Revolucionárias Francesas, quando a Convenção de 1792 proclamou a missão francesa de “libertar o mundo”, o que, na prática, muitas vezes significou a ocupação estrangeira e a imposição de um novo regime. A segunda onda emergiu nos projetos comunista e nazifascista, que, apesar de suas diferenças radicais, compartilhavam a ambição de suprimir a ordem social existente por meio de “intervenções despóticas e violentas”, como preconizado no Manifesto de Marx e Engels. A terceira onda, mais recente, foi a tentativa de impor a democracia pela força militar, exemplificada em conflitos como os do Kosovo (1999), Afeganistão (2001) e Iraque (2003), demonstrando a persistência da crença na legitimação da violência para atingir fins ideológicos e estabelecer uma ordem política desejada, mesmo que de forma impositiva.

A Quarta Onda e o Desafio da Coexistência

Atualmente, observa-se o surgimento do que muitos interpretam como uma “quarta onda” de messianismo ou, mais precisamente, um “desenraizamento” e anti-humanismo crescentes na sociedade global. O indivíduo contemporâneo, muitas vezes atomizado pela busca incessante de progresso e pela imersão na cultura de massa, é percebido cada vez mais como uma engrenagem em um modelo político-econômico complexo e impessoal. Nesse cenário, o valor do singular se dissolve fora da classe ou do grupo ao qual pertence, esvaziando a autonomia individual. Desvinculado de sua cultura de origem e da narrativa histórica, e imerso em uma rotina cotidiana que preenche sua existência, o “novo homem” torna-se uma presa fácil para as utopias sociais prometidas por discursos ideológicos simplificadores e polarizadores. A negação da complexidade e da autonomia individual, em favor de uma identidade coletiva predefinida, serve para a afirmação absoluta de forças políticas que buscam o controle total. O delírio das utopias, paradoxalmente, revela-se como um traço de união entre as mais diversas ideologias, todas prometendo um paraíso terrestre que, na prática, exige a submissão do indivíduo. Em um mundo onde os extremos continuam a se tocar e a polarização se aprofunda, o desafio permanece em encontrar caminhos para a coexistência pacífica e o diálogo construtivo, reconhecendo a dignidade e a singularidade de cada ser humano além das fronteiras ideológicas e das promessas mirabolantes.

Fonte: https://www.naoeimprensa.com

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