O neopentecostalismo é uma vertente relativamente recente do cristianismo evangélico, surgida nas décadas de 1970 e 1980. Ele se destaca pelo uso agressivo de marketing religioso, mídia de massa, promessas de prosperidade material, foco em milagres visuais e um sistema altamente centralizado de liderança, muitas vezes com títulos pomposos como “Apóstolo” ou “Profeta”.
No Brasil, esse movimento cresceu rapidamente por meio de igrejas como a Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, e, mais recentemente, igrejas como Lagoinha (atualmente voltada à elite), além de influenciadores religiosos como Deive Leonardo e Pablo Marçal. Segundo o IBGE, grande parte dos seguidores vem de classes menos favorecidas, vulneráveis emocional e financeiramente — tornando o discurso da prosperidade extremamente sedutor.
Teologia da prosperidade: raiz da distorção religiosa
A chamada teologia da prosperidade ensina que Deus deseja que todos os cristãos sejam ricos, saudáveis e bem-sucedidos, desde que tenham fé suficiente e, principalmente, façam “provas com Deus” por meio de generosas doações.
Essa doutrina transforma o relacionamento com Deus em uma transação comercial: se você dá dinheiro para a igreja ou para um “ungido”, Deus supostamente vai te recompensar com saúde, emprego, casa própria, carro e até status social. Cultos se transformam em ambientes de pressão emocional, onde o fiel é induzido a doar cada vez mais para não “bloquear sua bênção”.
No entanto, essa lógica inverte o evangelho. Deus se torna um “gênio da lâmpada” e o fiel, um cliente. A salvação é substituída por “campanhas”, “correntes” e “propósitos”, sempre atrelados a contribuições financeiras. É a fé que cobra taxa.
Alertas bíblicos: falsos profetas e sinais dos últimos tempos
A Bíblia não apenas prevê, como adverte com veemência que o surgimento de falsos profetas seria um dos sinais do fim dos tempos:
- “Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, e farão grandes sinais e prodígios; de maneira que, se possível fora, enganariam até os escolhidos.” (Mateus 24:24)
- “Sabe, porém, isto: nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Pois os homens serão amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos… tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela.” (2 Timóteo 3:1-5)
- “Quando o profeta falar em nome do Senhor, e tal palavra se não cumprir, nem suceder assim, esta é palavra que o Senhor não falou…” (Deuteronômio 18:22)
Esses versículos são claras advertências contra líderes que abusam da fé popular, com discursos inflamados e manipulação emocional, muitas vezes realizando supostos milagres ou contando histórias mirabolantes de revelações, visões e línguas celestiais que não têm qualquer confirmação ou base nas Escrituras.
Exemplos brasileiros e comportamentos de risco
Pablo Marçal se tornou famoso unindo coaching motivacional com pregação. Promete cura, sucesso e até ressurreição. Recentemente, foi alvo de investigação da Polícia Federal por suspeitas de estelionato, uso indevido de recursos e discurso messiânico manipulador. Suas promessas se desmancham na prática: foi responsabilizado por expedições perigosas e falsas curas.
André Valadão, líder da “Lagoinha dos famosos”, foi duramente criticado por transformar cultos em eventos com camarotes VIP. Suas falas polêmicas incluem frases como “resetar a humanidade” e discursos gordofóbicos e homofóbicos, gerando repúdio inclusive entre pastores mais tradicionais. A igreja, antes símbolo de adoração e simplicidade, virou palco para celebridades e performance espiritual.
Deive Leonardo virou fenômeno de público, vendendo ingressos para eventos religiosos com preços de até R$ 500. Suas pregações são inspiradoras, mas muitas vezes esvaziadas da centralidade bíblica e recheadas de experiências subjetivas, emocionais, que induzem o público à admiração da sua figura, não de Cristo.
Outros nomes como Silas Malafaia, Leonardo Salles, Apóstolo Ken, Vitória Souza, Profeta Mirim são constantemente apontados como falsos mestres, inventando revelações e “unções especiais” — muitas delas cobradas, ou condicionadas à participação em eventos pagos.
Edir Macedo e R.R. Soares, nomes antigos na lista, construíram impérios com base na fé alheia. Seus nomes aparecem em diversas denúncias de corrupção, lavagem de dinheiro, compra de canais de TV e uso de igreja como empresa.
Por que isso ameaça a fé genuína
O maior perigo do neopentecostalismo é trocar o Cristo das Escrituras por um cristo feito à imagem do consumo.
Os fiéis são ensinados que se estão pobres ou doentes, é porque não têm fé suficiente — o que é cruel. Jesus prometeu cruz, não conforto. O evangelho é boa notícia para o pecador arrependido, não um plano de enriquecimento rápido.
Esse sistema cria uma cultura de meritocracia espiritual onde a fé vira moeda de troca e líderes se tornam ídolos intocáveis. O evangelho se perde, e com ele, a alma das pessoas.
O verdadeiro significado do dízimo segundo as Escrituras
O dízimo na Bíblia era uma forma de sustentar os levitas (que não possuíam terras), os órfãos, as viúvas e os estrangeiros (Deuteronômio 14:28-29). Ou seja, tinha um propósito social e de justiça.
Nunca foi exigido como condição para bênção, muito menos para enriquecimento pessoal de líderes. Em nenhum momento Jesus ou os apóstolos impuseram o dízimo como regra da nova aliança, embora o próprio Cristo tenha reconhecido que os fariseus davam o dízimo, mas esqueciam o amor, a misericórdia e a justiça (Mateus 23:23).
Contribuir com a obra de Deus deve ser um ato de gratidão, voluntário, generoso e sem barganha. Como disse o apóstolo Paulo:
“Cada um contribua segundo propôs no seu coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria.” (2 Coríntios 9:7)
O que Jesus disse sobre dinheiro e a igreja
Jesus nunca pregou acúmulo de riquezas. Pelo contrário, ele foi direto:
“Ninguém pode servir a dois senhores… não podeis servir a Deus e às riquezas.” (Mateus 6:24)
“Ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem corroem.” (Mateus 6:20)
“Vendei tudo o que tendes e dai aos pobres…” (Lucas 12:33)
A igreja verdadeira, segundo os Atos dos Apóstolos, partilhava tudo, cuidava dos necessitados, e ninguém passava necessidade (Atos 4:32-35). Não havia templos de milhões, nem líderes com jatinho ou coleções de relógios.
Conclusão
O neopentecostalismo, embora com aparência de piedade, muitas vezes nega o próprio evangelho que diz pregar. Substitui a cruz por cifrões. Troca a verdade por espetáculo. Manipula os frágeis, enriquece os poderosos e desvia o foco de Jesus para o homem.
Mas o verdadeiro evangelho continua vivo. Ele é simples, transformador, generoso, sacrificial. Ele chama ao arrependimento, à compaixão, à comunhão verdadeira. Ele não promete riquezas, mas garante algo infinitamente maior: a vida eterna, a paz verdadeira e a presença de Deus.
Se você crê em Cristo de verdade, não se deixe seduzir por vozes que te chamam para um palco. Volte-se para a Palavra. Examine. Ore. Doe por amor, não por medo. Confie na providência divina — não nas estratégias humanas.
Porque o evangelho não é uma empresa. É uma cruz. E uma cruz não serve para enriquecer, mas para morrer. E ressuscitar.










