A busca por atenção é um dos impulsos mais profundos do ser humano. Em menor ou maior grau, todos desejam ser percebidos, admirados ou, ao menos, reconhecidos. Mas o que antes era uma necessidade natural de pertencimento se transformou em obsessão explícita. Na era TikTok e redes sociais, muitos se expõem ao ridículo ou se degradam moralmente para conquistar visualizações, curtidas e comentários – numa dinâmica que revela muito sobre a estrutura psicológica, social e biológica da nossa espécie.
Bases Biológicas: O Cérebro Humano e a Atenção Social
O cérebro social
Pesquisas em neurociência social (Lieberman, 2013) demonstram que o cérebro humano evoluiu prioritariamente para interações sociais. Áreas como o córtex pré-frontal medial, responsável por pensar sobre si mesmo e sobre os outros, e o córtex cingulado anterior, que detecta exclusão social, são ativadas intensamente quando nos sentimos ignorados ou rejeitados.
Rejeição dói como dor física
Estudos de Eisenberger e colegas (2003) usando ressonância magnética funcional mostraram que a rejeição social ativa as mesmas regiões cerebrais ligadas à dor física, como o córtex somatossensorial e a ínsula. Ou seja, ser ignorado, excluído ou não ter atenção pode literalmente doer.
Dopamina, recompensa e vício em atenção
A dopamina é o neurotransmissor central no sistema de recompensa. Receber curtidas ou elogios ativa os circuitos mesolímbicos de dopamina (ventral tegmental area e núcleo accumbens), gerando prazer imediato. Estudos em psicologia cognitiva (Meshi et al., 2013) confirmam que curtidas em redes sociais provocam o mesmo tipo de excitação cerebral que recompensas físicas, como comida ou sexo. Isso cria um ciclo vicioso de compulsão por validação digital.
Psicologia Evolutiva: Por que tanto desespero?
Status, sobrevivência e reprodução
Na ancestralidade, ser notado significava status dentro do grupo – fator que elevava chances de acesso a recursos, proteção e parceiros. A psicologia evolucionista (Buss, 2019) explica que nosso cérebro mantém esses mecanismos: quem é visto, admirado ou desejado sente que garante espaço de sobrevivência. Contudo, em sociedades modernas, essa necessidade se distorce em busca patológica por atenção de estranhos, sem função real para sobrevivência ou reprodução efetiva.
A Era TikTok e o Apogeu da Exposição Humana
Exposição ridícula como moeda de troca
No TikTok, o “engajamento” não exige talento, inteligência ou profundidade. Exige visibilidade a qualquer custo. É por isso que:
- Pessoas comem sabão, detergente ou objetos perigosos (ex: Tide Pod Challenge, 2018).
- Se machucam propositalmente em danças ou trends perigosas (ex: Skull Breaker Challenge, 2020).
- Expõem sua vida íntima, sexualidade ou desavenças familiares publicamente para gerar polêmica e curtidas.
O corpo como último recurso
A psicologia social explica que a erotização pública é uma estratégia rápida de atenção, pois ativa o interesse biológico humano mais primitivo (Baumeister & Leary, 1995). Assim, pessoas recorrem a:
- Exposição exagerada do corpo em vídeos;
- Danças hiper-sexualizadas;
- Divulgação de OnlyFans ou links privados para vender nudez como extensão dessa atenção digital.
Para muitos, o raciocínio interno é: “se eu não conseguir atenção pelo meu intelecto ou humor, consigo pelo corpo”. É um processo inconsciente, mas plenamente analisado em estudos sobre autoestima e estratégias de auto-apresentação (Leary, 1995).
O narcisismo digital
Twenge & Campbell (2018) mostram que a geração Z apresenta índices mais altos de traços narcisistas (auto-obsessão, necessidade de admiração constante, falta de empatia genuína) do que gerações anteriores. Isso se intensifica com redes como TikTok, que promovem micro-fama e alimentam esse transtorno coletivo.
O Custo Psicológico e Social dessa Exposição
- Ansiedade crônica: a constante espera por validação digital aumenta ansiedade e sintomas depressivos (APA, 2017).
- Perda de senso de valor real: estudos indicam que pessoas que baseiam autoestima em redes sociais têm maior insatisfação com vida offline (Vogel et al., 2014).
- Normalização da estupidez e vulgaridade: quanto mais viral for um conteúdo idiota ou vulgar, mais ele se torna parâmetro aceitável de comportamento.
Conclusão Crítica
A necessidade humana de atenção é natural, mas o que vemos na era TikTok é uma mutação grotesca dessa necessidade. A exposição ao ridículo e a autodegradação em busca de curtidas revelam um cenário preocupante: uma geração que desconhece seu valor real, ignora a dignidade e confunde engajamento digital com significado de vida.
No fundo, essa compulsão nada mais é do que um grito desesperado por conexão, pertencimento e validação – que as redes prometem, mas jamais entregam de fato.
Um Contraponto Necessário: Quando o Viral é Culto, Educativo e Inspirador
Apesar do cenário alarmante de autodegradação digital em busca de atenção, é fundamental reconhecer que nem todo conteúdo viral é fútil ou ridículo. Existe uma outra face das redes sociais: conteúdos culturais, educativos e inspiradores que alcançam milhões sem apelar para erotização ou idiotização.
O Poder do Conteúdo Educativo Viral
Estudos em comunicação digital (Katz & Lazarsfeld, 2020) mostram que, quando bem produzidos, conteúdos educativos podem ter igual ou maior engajamento do que entretenimento vazio. Exemplos globais e nacionais incluem:
- Ciência e curiosidades: vídeos explicando fenômenos físicos, químicos ou biológicos de maneira didática e curta (ex: perfis como Physics Girl ou Átila Iamarino).
- História e filosofia: canais que viralizam com sínteses de fatos históricos, reflexões filosóficas ou biografias inspiradoras (ex: Leitura ObrigaHISTÓRIA, Filosofia em 1 Minuto).
- Arte e música: instrumentistas, cantores e artistas plásticos que viralizam mostrando processos criativos ou técnicas raras.
- Idiomas e cultura: professores que ensinam expressões de inglês, francês, japonês e outras línguas em vídeos curtos, motivando milhões a aprender.
Por que eles viralizam?
Esses conteúdos ativam o mesmo circuito de dopamina da novidade, mas oferecem valor real ao espectador, que sente:
✅ Satisfação intelectual
✅ Orgulho de aprender algo novo
✅ Motivação para compartilhar e parecer mais culto ou engajado culturalmente
Exemplos reais de viralização positiva
- “Ciência Todo Dia” (Pedro Loos) com milhões de seguidores no YouTube e TikTok, abordando ciência com linguagem acessível.
- “Operação Literatura” com resumos e análises literárias em vídeos curtos.
- “History Channel Clips” que explodem em views explicando guerras, reinos e biografias históricas em linguagem simples.
- Canais de culinária internacional, que além de ensinar receitas, exploram a cultura de cada povo.
Conclusão do Contraponto
Portanto, embora o ser humano tenha a tendência de buscar atenção a qualquer custo, isso não significa que conteúdos de qualidade não possam engajar. Existe, sim, uma audiência faminta por cultura, ciência, filosofia e arte. A diferença está no criador de conteúdo: aquele que escolhe o caminho mais fácil da autopiedade, do corpo ou do ridículo; e aquele que trabalha duro para transformar conhecimento em entretenimento valioso.
Em última análise, a escolha do que viraliza também está nas mãos de quem consome.
Referências
- American Psychological Association (APA). (2017). Stress in America: Coping with Change. American Psychological Association.
- Baumeister, R. F., & Leary, M. R. (1995). The need to belong: Desire for interpersonal attachments as a fundamental human motivation. Psychological Bulletin, 117(3), 497–529.
- Buss, D. M. (2019). Evolutionary Psychology: The New Science of the Mind (6th ed.). Routledge.
- Eisenberger, N. I., Lieberman, M. D., & Williams, K. D. (2003). Does rejection hurt? An fMRI study of social exclusion. Science, 302(5643), 290–292.
- Katz, E., & Lazarsfeld, P. F. (2020). Personal Influence: The Part Played by People in the Flow of Mass Communications. Routledge.
- Leary, M. R. (1995). Self-presentation: Impression management and interpersonal behavior. Westview Press.
- Lieberman, M. D. (2013). Social: Why our brains are wired to connect. Crown Publishers.
- Meshi, D., Morawetz, C., & Heekeren, H. R. (2013). Nucleus accumbens response to gains in reputation for the self relative to gains for others predicts social media use. Frontiers in Human Neuroscience, 7, 439.
- Twenge, J. M., & Campbell, W. K. (2018). The Narcissism Epidemic: Living in the Age of Entitlement. Atria Books.
- Vogel, E. A., Rose, J. P., Roberts, L. R., & Eckles, K. (2014). Social comparison, social media, and self-esteem. Psychology of Popular Media Culture, 3(4), 206–222.











