A ressaca do Oscar 2026 traz um gosto amargo, mas necessário, para o cinema brasileiro. Mais uma vez, voltamos de mãos vazias. E, antes que comece o coro vitimista de que o mundo não nos entende, é preciso encarar a verdade nua e crua: o filme brasileiro era ruim. Perto dos concorrentes, a obra nacional não tinha chances reais e sua indicação exalou o cheiro de cumprimento de cota internacional.
Para que o Brasil vença, ele precisa primeiro aprender a perder e, principalmente, aprender a produzir.
A Indústria do Faz de Conta e o Dinheiro Público
O grande gargalo do cinema nacional começa onde deveria haver incentivo. O modelo de financiamento, dependente de editais estatais e patrocínios como os da Petrobras, levanta questões que vão além da arte. É um sistema onde o orçamento evapora e muitas vezes não se reflete na qualidade técnica final. Filmes são feitos para agradar comissões governamentais e garantir a próxima verba, não para serem obras memoráveis.
O Monotema da Ditadura e a Visão Unilateral
O cinema brasileiro parece preso em um looping ideológico. Enquanto o mundo explora novos gêneros, o Brasil insiste na cansativa história da ditadura, invariavelmente sob uma ótica de esquerda e com narrativas infladas. Essa insistência cria uma barreira: a obra deixa de ser cinema para virar panfleto. E panfletos raramente ganham estatuetas por excelência artística.
A Fragilidade da Formação Artística
Ao compararmos nossos elencos com os de outros países, a diferença é gritante. No cenário internacional, vemos atores e atrizes completos: cantam, dançam, dublam e possuem uma técnica de entrega visceral. No Brasil, salvo raras exceções, a formação parece limitada, produzindo intérpretes que dependem mais de persona e militância do que de técnica e versatilidade.
O Cansaço da Militância: A Lição do Oscar 2026
O Oscar de ontem deixou um recado claro: o mundo cansou da lacração forçada. Diferente de anos anteriores, a cerimônia de 2026 foi visivelmente mais limpa de discursos panfletários. O momento emblemático foi a tentativa de Javier Bardem de militar sobre o Oriente Médio. Ao seu lado, Priyanka Chopra, vinda da Índia, país que abriga a terceira maior população muçulmana do mundo, simplesmente ignorou a tentativa do ator espanhol. O silêncio dela e o desinteresse da plateia mostraram que o público quer arte, não sermões.
O Caminho para a Vitória Verdadeira
Enquanto o Brasil priorizar camadas de desvio de verba, superfaturamentos, temas batidos e tentativas forçadas de inclusão, o essencial, que é o cinema, ficará para trás. O resultado são derrotas em prêmios onde claramente só participou para cumprir cota.
A Transmissão da HBO Max: Uma Batalha de Vergonha Alheia
Como se não bastasse a qualidade das obras, a transmissão brasileira pela HBO Max atingiu um novo patamar de bizarrice. A escolha de Vladimir Brichta e Fabíula Nascimento como apresentadores foi um desastre retumbante. Ficou claro, em questão de minutos, que a dupla não havia assistido à maioria dos filmes em competição. Comentários rasos, opinões desinformadas e uma completa falta de domínio sobre a técnica cinematográfica causaram um efeito de “dor física” no espectador. Foi uma versão 2026 do “efeito Glória Pires”, onde a caricatura substituiu o conhecimento técnico. Como podemos exigir respeito internacional ao nosso cinema se, em uma vitrine global, o país se faz representar por uma cobertura amadora e superficial?
Torci contra o Brasil? Sim! Mas por quê?
A questão não é torcer contra por falta de patriotismo, e sim ser realista. O filme brasileiro indicado era ruim, enquanto os concorrentes eram bons em sua essência. Havia filmes mais parados? Sim, mas a essência era verdadeira e respeitosa. Não há problema algum em ter orgulho de sua origem, desde que a obra sustente esse orgulho.
A prova de que a crítica não é sobre preconceito está na minha torcida por duas obras excelentes de 2025: Sinners (Pecadores) e A Battle After Another (Uma Batalha Após a Outra). Esses filmes abordam o racismo e a comunidade negra, temas que eu admiro profundamente, mas fazem isso na medida certa, sem exageros ou choradeira. As obras foram respeitosas com a história.
O momento da vitória de Michael B. Jordan foi de arrepiar; ele homenageou e agradeceu seu povo com um orgulho real, sentimental e verdadeiro. Isso é arte com alma. O que cansa não é o tema social, mas o uso excessivo de fórmulas batidas e as tentativas de empurrar goela abaixo coisas que já aprendemos a coexistir com o passado. Para vencer, o Brasil precisa focar na produção e na verdadeira alma do cinema, deixando a militância errada de lado.











