A mais recente adição ao universo de Resident Evil, intitulada Requiem, tem gerado um debate significativo entre os entusiastas da longeva franquia de horror da Capcom. Esta nova entrada promete um capítulo substancial, repleto de revelações que podem redefinir aspectos cruciais da narrativa estabelecida. Com a capacidade de abranger desde a pré-história até os eventos mais recentes, o cânone de Resident Evil é notoriamente complexo, e qualquer nova inclusão, como Requiem, inevitavelmente levanta questões sobre a consistência da linha do tempo. Observadores atentos da série têm ponderado sobre o impacto dessas novidades, especialmente no que diz respeito ao suposto “retcon” da completa destruição de Raccoon City por um míssil no final de Resident Evil 3. Este retorno à cidade icônica e as subsequentes mudanças na lore são pontos centrais de discussão, influenciando a percepção dos fãs sobre o futuro da franquia, as inconsistências criadas pelos recentes remakes e a maneira como novos elementos são incorporados à sua vasta mitologia.
O Desafio da Cronologia em Expansão
Discrepâncias entre Originais e Remakes
O trabalho meticuloso de catalogar a vasta história de Resident Evil, que se estende por bilhões de anos de lore ficcional, é um empreendimento contínuo, demandando constante atualização e refinamento. As novas adições de Requiem, embora divertidas, apresentaram desafios notáveis, alterando certos aspectos do cânone que datam de décadas. A complexidade imposta por essas mudanças levou ao surgimento de duas vertentes distintas na linha do tempo da franquia: uma focada nos remakes como cânone primário e outra estritamente aderente aos jogos originais. Essa abordagem permite aos jogadores escolher qual versão da história preferem seguir, mitigando as contradições que surgem.
A questão das discrepâncias entre os jogos originais e seus remakes é multifacetada. Embora os arcos principais da história permaneçam amplamente inalterados, os detalhes mais finos e os pontos de enredo menores frequentemente divergem de maneira significativa. Por exemplo, a morte de Brad Vickers ocorre de formas diferentes no Resident Evil 3 original e em seu remake. Da mesma forma, o destino de Marvin Branagh e a relação de Krauser com Wesker em Resident Evil 4 também são alterados. Enquanto muitos fãs podem não se importar com essas nuances, dada a sua mínima consequência para a narrativa geral, para aqueles que se dedicam a organizar a lore de forma coesa e cronológica, essas diferenças se tornam um obstáculo intransponível sem a separação do cânone.
Um exemplo notável das divergências ocorre na representação do incidente de Raccoon City. Nos remakes de Resident Evil 2 e 3, o surto da cidade não ganha força real até 25 de setembro, com a polícia respondendo apenas ao terceiro incidente de “doença canibal” do mês. No entanto, na mesma data nas versões originais, vários cenários de Outbreak já haviam acontecido, a cidade estava sob lei marcial e toda a área havia sido bloqueada pelos militares. Tais disparidades nos enredos secundários são substanciais, mesmo que os eventos centrais da história permaneçam consistentes.
Os jogos spin-off também contribuem para essa complexidade. Curiosamente, Requiem incorpora elementos da série Outbreak, mas os eventos desses jogos não se encaixam na linha do tempo dos remakes, pois arquivos e datas em Resident Evil 2 e 3 Remake os contradizem. A série de animação digital Infinite Darkness é outro exemplo, usando o Leon do Remake 2, mas revertendo à sua história original de Resident Evil 2 de chegar atrasado para seu primeiro dia de trabalho em 29 de setembro, um detalhe alterado no Remake 2, onde ele deveria começar em 25 de setembro e foi instruído a se afastar. Além disso, grande parte dos detalhes de enredo mais finos da lore de Resident Evil, especialmente os originais, provém de materiais suplementares como livros, relatórios e sites, muitos exclusivos do Japão, que enriquecem a experiência. Os remakes, por outro lado, carecem desses materiais, tornando certos pontos da trama menos compreensíveis sem o contexto dos originais, o que reforça a importância contínua dos jogos originais e a visão de que os remakes não são meros substitutos.
Avaliação de Requiem e Suas Revelações Cruciais
A Narrativa de Requiem e o Retorno a Raccoon City
A narrativa de Resident Evil Requiem foi amplamente apreciada por sua capacidade de revisitar e expandir elementos centrais da franquia. A ambientação do Rhodes Hill Chronic Care Centre foi considerada um local excelente, e a introdução da nova personagem Grace Ashcroft foi muito bem-vinda. A jornada de Leon Kennedy em Requiem também recebeu elogios; embora ele mantenha seu carisma e habilidades de combate, ele se mostra mais cansado e reflexivo, um personagem que amadureceu com a idade. A preocupação inicial de repetir sua luta contra uma infecção, já vista em Resident Evil 4, foi bem gerenciada, resultando em um enredo envolvente. A atuação de Nick Apostolides foi destacada, e o retorno de Sherry Birkin, trabalhando em conjunto com Leon, reforçou os temas de perda e arrependimento que permeiam a história.
A introdução de Zeno, um personagem com claras referências a Albert Wesker, foi recebida com surpresa positiva. Embora o retorno de Wesker tenha sido um ponto de controvérsia entre os fãs, Zeno foi sutilmente diferente o suficiente para ser aceito e apreciado. Requiem marcou um bem-vindo retorno à linha do tempo principal da Umbrella, após as histórias de Resident Evil 7 e Village, que eram mais focadas na saga de Ethan Winters e pareciam mais independentes. Uma das maiores reviravoltas foi o “retcon” da destruição de Raccoon City. Inicialmente, havia ceticismo quanto a essa mudança, mas a oportunidade de revisitar as ruínas desbotadas pelo sol da cidade criou uma atmosfera única, e o retorno à delegacia de polícia R.P.D. evocou fortes emoções. A ausência de personagens como Claire Redfield e Jill Valentine foi notada, mas entendida como uma decisão para focar na história de Leon. A Capcom foi aplaudida por manter tantas surpresas em segredo, como a aparição de Zeno e o retorno de Hunk, entregando uma parte final do jogo repleta de revelações.
O Legado de Oswell Spencer e As Conexões
As novas revelações em torno de Oswell E. Spencer em Requiem geraram considerável controvérsia na comunidade de fãs de Resident Evil. A ideia de que Spencer teria expressado arrependimento por suas ações passadas, que tanto moldaram a série, não se alinhou com a imagem de um vilão calculista, visionário de divindade e manipulador que sempre o caracterizou. Sua determinação em seus momentos finais em Resident Evil 5 parecia contradizer essa suposta mudança de coração, chegando a enganar Victor Gideon na trama de Requiem. No entanto, é importante considerar que Spencer era conhecido por seu planejamento frio e meticuloso. A comunidade de analistas sugere que, embora possa haver um elemento genuíno de arrependimento, é provável que ele estivesse manipulando personagens como Alyssa e Grace, e que ainda há aspectos de sua trama a serem revelados.
Muitos especulam que o projeto EPLIS não foi concebido por uma súbita mudança de coração de Spencer sobre suas ações malignas, mas sim como um plano de contingência caso ele perdesse o controle do T-vírus e da Umbrella. Após o fim da saga de Raccoon City, a narrativa se desloca para o bioterrorismo global, com inúmeras corporações desenvolvendo e utilizando bioarmas. Nesse contexto, Spencer poderia estar agindo para impedir que outros “roubassem seus brinquedos”. Se ele ainda tivesse acesso ao Ark, poderia ter desestabilizado seus inimigos com uma única ação. Requiem, portanto, sugere que Spencer obteve sua “última risada” sobre seus inimigos, mesmo após a morte. Sua capacidade de continuar manipulando eventos e peças no tabuleiro duas décadas após seu falecimento reflete sua verdadeira imortalidade, uma característica que se alinha perfeitamente ao seu caráter.
A retrospectiva adição de “The Connections” à história da série também é significativa. O bombardeio de Raccoon City já envolvia múltiplos fatores, e a introdução do Ark e do EPLIS adiciona outra camada de complexidade. Desde a morte de Wesker em Resident Evil 5, a franquia tem enfrentado um “problema de vilões”, com a narrativa se tornando um tanto fragmentada. Personagens como Chris Redfield sofreram, tornando-se mais genéricos por não terem mais um envolvimento pessoal direto, mas apenas cumprindo um dever. A Capcom tem a tendência de estabelecer novos vilões e organizações apenas para eliminá-los após um único jogo. Assim, a introdução de um novo inimigo recorrente como The Connections é bem-vinda, e a esperança é que essa organização e seus líderes permaneçam na série por mais tempo, garantindo uma ameaça consistente e duradoura.
Próximos Passos e Questões em Aberto
O retorno de Raccoon City em Requiem levantou novas questões sobre elementos da lore que poderiam ter sido explorados mais a fundo. Uma explicação plausível para a não destruição completa da cidade pelo míssil é algo que muitos fãs esperavam. A ideia de que a notícia da obliteração da cidade teria sido uma mentira elaborada pelo governo para proteger o sigilo do projeto ARK e experimentos futuros nas ruínas, com a imposição de uma zona de exclusão aérea, é uma hipótese que, embora ousada, teria sido preferível a um “retcon” simplesmente aceito. Seria também interessante saber o destino de outros sobreviventes ao longo dos anos, como os personagens de Outbreak, Ada Wong e Carlos Oliveira, especialmente com a Síndrome de Raccoon City sendo um fator relevante.
A colusão entre a Umbrella e o governo dos EUA, prometida em Resident Evil 6 mas nunca totalmente explorada, é outro ponto de interesse. Essa relação, próxima mas tensa, onde ambos os lados tinham poder para destruir o outro, culminou quando o governo buscou adquirir William Birkin, acreditando que não precisaria mais da Umbrella. Há uma rica trama de bastidores que os jogos raramente detalham. Além disso, a “Blue Umbrella” introduzida em Resident Evil 7 como um renascimento da corporação, vista por muitos como uma provocação a um enredo maior, acabou se mostrando uma pista falsa, dada sua ausência em Village e agora em Requiem.
O final de Requiem, com a menção dos “Wolves”, parece uma clara referência à equipe Hound Wolf Squad de Chris Redfield em Village. A ausência de Chris no final de Requiem sugere que ele está envolvido em outra missão, possivelmente ligada ao controle corrupto da BSAA por facções do governo trabalhando com The Connections. Isso pode amarrar o gancho de Village, onde a BSAA estava utilizando bioarmas. Chris e sua equipe, que agiram por conta própria para capturar Miranda, são provavelmente vistos como a principal ameaça aos planos da nova organização.
Para futuras expansões de Requiem, muitos esperam ver Chris Redfield e Jill Valentine juntos novamente. A razão pela qual Chris não estava com o Hound Wolf Squad para salvar Leon é um mistério que pode ser explorado, talvez investigando os remanescentes da mansão do jogo original. Além disso, o paradeiro de Claire, Ada e Carlos no presente, especialmente em relação à Síndrome de Raccoon City, ainda é desconhecido. O passado de Zeno também permanece um grande ponto de interrogação, e a comunidade aguarda uma explicação para sua existência, esperando que sua história seja mais do que uma mera imitação de Wesker. Para novos fãs, o mergulho na lore deve começar com a descoberta do Vírus Progenitor e a formação da Umbrella, explorando a história do T-vírus, as relações entre Spencer, James Marcus e Edward Ashford, e as origens de Wesker e William Birkin. Após jogar Requiem, a recomendação é revisitar o remake de Resident Evil 2 para experimentar a Raccoon City pré-destruição. Finalmente, a esperança para um remake de Code: Veronica inclui a exploração do enigmático Edward Ashford e a explicação da “empresa rival” de Wesker, H.C.F., um enredo que permanece sem solução desde Resident Evil 4. E, para finalizar a discussão, a preferência de Leon, e de muitos fãs, ainda reside com Ada Wong.
Fonte: https://www.ign.com














