A Trajetória Pioneira no Punk com The Dictators
Raízes do Rock e a Formação da Banda
Nascido como Ross Friedman em 3 de janeiro de 1954, na cidade de Nova Iorque, o futuro “The Boss” desde cedo demonstrou uma afinidade inata com a guitarra. Crescendo em um ambiente efervescente de mudanças culturais e musicais, ele absorveu as influências do rock ‘n’ roll clássico e da contracultura da década de 1960. Sua paixão pela música o levou a mergulhar na cena underground de Nova Iorque, onde a energia bruta do rock de garagem estava começando a se transformar em algo novo e irreverente. Foi nesse caldeirão cultural que, no início dos anos 1970, Friedman cofundou The Dictators. A banda, formada em 1972, antes mesmo do surgimento formal do movimento punk, é frequentemente creditada como uma das precursoras do gênero, estabelecendo as bases para o que se tornaria o punk rock nova-iorquino ao lado de contemporâneos como o Ramones e o Television. Eles infundiram seu som com uma atitude descompromissada, humor sarcástico e uma energia visceral que os distinguia.
Impacto e Legado de The Dictators
Com The Dictators, Ross Friedman ajudou a definir o que significava ser uma banda de punk antes que o termo fosse amplamente difundido. Seu álbum de estreia, “Go Girl Crazy!” (1975), é considerado um marco. Nele, Friedman demonstrou sua habilidade em criar riffs pegajosos e potentes, que, embora rústicos, possuíam uma qualidade melódica e uma força que transcenderam as expectativas do rock da época. A banda era conhecida por suas letras espirituosas, muitas vezes celebrando a cultura pop americana, a comida junk food e a atitude despreocupada. The Dictators não apenas tocava rock ‘n’ roll; eles personificavam um estilo de vida rebelde e autêntico que ressoou com uma geração desiludida. Embora nunca tenham alcançado o sucesso comercial massivo de algumas de suas contrapartes, sua influência nos círculos do punk e do proto-punk é inegável. Eles abriram caminho para inúmeras bandas, mostrando que o rock poderia ser divertido, inteligente e desafiador, tudo ao mesmo tempo. A contribuição de Friedman foi crucial para estabelecer o som e a identidade da banda, solidificando seu status como um verdadeiro pioneiro.
A Ascensão ao Olimpo do Metal com Manowar
A Transição para o Heavy Metal e a Criação do Manowar
Após sua passagem por The Dictators, Ross Friedman embarcou em uma jornada musical que o levaria a explorar os reinos mais grandiosos e épicos do heavy metal. O contraste entre o punk cru e direto e o metal bombástico pode parecer drástico, mas para Friedman, era uma evolução natural de sua busca por sons potentes e impactantes. No final dos anos 1970, ele conheceu o baixista Joey DeMaio durante uma turnê com uma banda chamada Shakin’ Street, na qual DeMaio era técnico de pirotecnia. A sintonia musical e a visão compartilhada para uma nova forma de heavy metal foram instantâneas. Juntos, eles fundaram Manowar em 1980, na cidade de Auburn, Nova Iorque. A proposta da banda era clara e ambiciosa: criar o “true metal”, um gênero caracterizado por temas de fantasia, mitologia, guerreiros, glória e um som amplificado ao máximo, com a promessa de ser mais alto e mais pesado do que qualquer outra coisa existente. Friedman, com sua experiência em criar riffs memoráveis e uma presença de palco eletrizante, era a peça fundamental para concretizar essa visão grandiosa.
Os Anos de Glória e a Estética do “True Metal”
A década de 1980 viu o Manowar, com Friedman na guitarra, ascender rapidamente ao panteão do heavy metal. Álbuns icônicos como “Battle Hymns” (1982), “Into Glory Ride” (1983), “Hail to England” (1984), “Sign of the Hammer” (1984), “Fighting the World” (1987) e o aclamado “Kings of Metal” (1988) definiram a sonoridade da banda e cimentaram sua reputação. A guitarra de Friedman era um pilar central desse som: poderosa, melódica e sempre presente, com solos que combinavam técnica e emoção, perfeitamente adequados aos hinos épicos da banda. Ele ajudou a criar a estética visual e sonora do “true metal”, com suas capas de álbum grandiosas, letras sobre batalhas e lealdade, e uma performance ao vivo que beirava o teatral, com couro, peles e uma atitude inabalável de superioridade metálica. Manowar se tornou sinônimo de poder e devoção ao metal, e Friedman foi uma figura crucial em estabelecer essa identidade duradoura. Sua saída do Manowar após “Kings of Metal” marcou o fim de uma era, mas os álbuns que ele co-criou continuam a ser pilares do gênero e referências para incontáveis músicos.
O Pós-Manowar e Outros Projetos
Mesmo após sua saída do Manowar, Ross Friedman nunca abandonou sua paixão pela música. Sua carreira continuou prolífica, demonstrando sua versatilidade e a sede incessante por criar. Ele se envolveu em uma série de projetos, explorando diferentes facetas do rock e do metal. Friedman retornou aos palcos com uma das encarnações de The Dictators, provando que sua energia punk original ainda estava intacta. Além disso, ele se aventurou em uma carreira solo de sucesso sob o nome “Ross The Boss”, lançando álbuns que revisitavam suas raízes no heavy metal, mas com uma abordagem mais moderna e pessoal. Seus álbuns solo, como “New Metal Leader” e “By Blood Sworn”, foram bem recebidos pelos fãs, que apreciavam a oportunidade de ouvir sua guitarra distintiva novamente em um contexto de puro metal. Ele também participou de outras bandas e colaborações, solidificando sua reputação como um músico trabalhador e dedicado, que nunca deixou de evoluir e contribuir para a cena musical, mantendo sua influência viva e relevante por décadas após seus primeiros sucessos.
Uma Luta Silenciosa e o Legado Eterno de um Ícone
A batalha de Ross ‘The Boss’ Friedman contra a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) foi travada com notável resiliência, embora em grande parte longe dos holofotes. A doença, que afeta os neurônios motores, levando à paralisia progressiva, impôs desafios imensos ao guitarrista, comprometendo gradualmente sua capacidade de se expressar através da música que tanto amava. A coragem com que enfrentou essa condição debilitante, mantendo a dignidade e a paixão pela vida, é um testemunho de seu espírito indomável. Embora os detalhes de sua luta fossem conhecidos apenas por um círculo íntimo, sua resiliência ecoa como uma inspiração silenciosa para aqueles que o admiravam. A notícia de seu falecimento, após uma vida dedicada à arte e à inovação musical, trouxe uma onda de luto e reflexão sobre o impacto profundo que ele deixou. Ross Friedman não foi apenas um músico talentoso; ele foi um visionário que transcendeu gêneros, deixando sua marca indelével tanto no furioso punk de The Dictators quanto no grandioso heavy metal de Manowar. Sua capacidade de moldar sonoridades tão distintas e ainda assim manter uma identidade musical única é um feito raro e digno de celebração. O legado de Ross ‘The Boss’ Friedman é a prova de que a verdadeira arte não se confina a rótulos, mas se manifesta através da paixão, da inovação e da capacidade de tocar o coração e a mente de milhões. Ele parte, mas seus riffs icônicos e sua alma de rock and roll continuarão a inspirar e a ressoar, mantendo sua memória viva e sua contribuição eterna para a tapeçaria da música mundial.
Fonte: https://www.rollingstone.com














