A resposta que gerou este artigo
A motivação para este artigo surgiu após uma resposta que dei em uma publicação no Instagram. Diante de um comentário que acusava a Bíblia – especialmente o Antigo Testamento – de ser machista, vi-me obrigado a colocar os pingos nos “is” com firmeza, clareza e base bíblica sólida. Eis a resposta que publiquei e que, por si só, resume o cerne do problema:
_”É importante compreender que a Bíblia, especialmente o Antigo Testamento, foi escrita em contextos históricos, sociais e culturais muito diferentes dos nossos. Muitas das passagens que hoje podem parecer machistas ou ofensivas aos olhos da sociedade contemporânea refletem a realidade daquele tempo — um mundo patriarcal, onde as estruturas sociais, políticas e familiares eram radicalmente distintas.
Dizer que certas passagens bíblicas são ‘machistas’ sem considerar o contexto em que foram escritas é um anacronismo — é julgar o passado com os olhos do presente. A Bíblia não foi escrita em um vácuo moral; ela reflete o caminhar de um povo dentro de sua realidade histórica. Naquele tempo, por exemplo, a proteção da mulher frequentemente se dava por meio de normas que, para nós hoje, soam opressivas, mas que naquela sociedade representavam avanços ou garantias mínimas de dignidade e sobrevivência.
Além disso, a própria Bíblia mostra um desenvolvimento moral e espiritual ao longo do tempo. A revelação bíblica é progressiva. O que vemos no Antigo Testamento é o começo de uma caminhada que vai amadurecendo até chegar à mensagem de Jesus Cristo no Novo Testamento, onde se vê com mais clareza a valorização plena da dignidade humana, incluindo o papel e o valor da mulher.
A sociedade evolui, sim, e isso é natural. Deus fala com o ser humano dentro do tempo e da cultura em que ele está inserido. O fato de certas leis e práticas do Antigo Testamento não se encaixarem na nossa realidade atual não invalida sua importância histórica ou espiritual. Pelo contrário: mostra como Deus se relaciona com a humanidade de forma gradual, conduzindo-a ao longo do tempo para um entendimento mais pleno do amor, da justiça e da igualdade.
Sua revolta com a religião que, a propósito, foi criada pelo homem e não tem nada a ver com Deus — fez com que você perdesse totalmente a capacidade interpretativa e o discernimento histórico-cultural necessário pra perceber que o que você está julgando é o passado com o olhar do presente. Isso só te faz parecer ignorante.”_
Esse texto, embora claro e embasado, foi motivo de confronto. E justamente por isso, vale a pena aprofundar o tema.
A Bíblia e o Contexto: O que era o mundo antigo?
O Antigo Testamento foi escrito ao longo de séculos, em um mundo tribal, patriarcal e violento — não por escolha divina, mas por realidade humana. Naquele tempo:
- Guerras constantes entre povos eram comuns.
- A mulher era vista como propriedade em muitas culturas pagãs.
- O sistema legal era extremamente rudimentar.
- O povo de Deus estava sendo moldado a partir de padrões ainda primitivos.
A Bíblia não endossa essas práticas como ideais eternos, mas registra como Deus começou a trabalhar com o ser humano dentro da sua própria limitação. Julgar essas passagens com mentalidade de 2025 é, no mínimo, desonesto intelectualmente.
A Revelação Progressiva: Da Lei à Graça
“A Lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.” — João 1:17
A Bíblia não é um livro estático. Ela é um registro de um processo. Um Deus eterno comunicando-se com seres limitados, aos poucos, respeitando seu tempo, suas culturas e sua capacidade de absorção.
No Antigo Testamento, vemos Deus tolerando práticas que Ele jamais aprovou como ideais — como a poligamia, por exemplo. Mas no Novo Testamento, com Cristo, a verdade plena é revelada. Mulheres são protagonistas, discípulas, anunciadoras da ressurreição (Lucas 24:10). Jesus quebra paradigmas, conversa com samaritanas (João 4), perdoa adúlteras (João 8), cura mulheres marginalizadas e as trata com dignidade.
Se Deus fosse machista, por que permitiria que mulheres fossem as primeiras a testemunhar a ressurreição? Isso seria impensável em uma cultura hebraica tradicional. Mas Deus não está preso à cultura — Ele age dentro dela, para transformá-la por dentro.
Leis que Parecem Machistas: Um Olhar de Dentro da Cultura
Vamos a alguns exemplos sempre usados fora de contexto:
1. Mulheres como “propriedade”?
“Se um homem seduzir uma virgem que ainda não está prometida em casamento e dormir com ela, terá de pagar o dote e casar-se com ela.” — Êxodo 22:16
Isso não é machismo. Isso era proteção legal para uma mulher que, se perdesse a virgindade, poderia ser rejeitada para o casamento — o que, naquela época, significava miséria e exclusão. Deus não está promovendo abuso, está estabelecendo responsabilidade do homem perante o ato sexual.
2. Mulheres separadas durante o ciclo menstrual?
“Quando uma mulher tiver fluxo, o fluxo do seu corpo for sangue, estará impura por sete dias…” — Levítico 15:19
Isso nada tem a ver com misoginia. Trata-se de leis de pureza cerimonial que se aplicavam a homens também (Levítico 15:1-18). Era um código sanitário e ritual, não moral.
3. Por que não há tantas mulheres líderes?
A liderança tribal do Antigo Testamento era reflexo de um mundo que não permitiria liderança feminina sem escândalo. Ainda assim, encontramos exceções marcantes:
- Débora, juíza de Israel (Juízes 4)
- Miriã, profetisa (Êxodo 15:20)
- Hulda, profetisa consultada por sacerdotes e reis (2 Reis 22:14)
- Ester, salvadora de um povo inteiro (Livro de Ester)
Essas mulheres não foram escondidas — foram exaltadas. Em uma cultura patriarcal, elas brilharam com o selo de Deus.
Jesus: A Revolução que já Estava Semeada
Jesus é a expressão mais pura do caráter de Deus (Hebreus 1:3). E o que Ele faz?
- Ele quebra a barreira entre gêneros, raças e classes sociais (Gálatas 3:28).
- Ele se deixa ser ungido por uma mulher, algo inaceitável para os fariseus (Lucas 7).
- Ele corrige os homens que queriam apedrejar a adúltera (João 8), sem jamais aprovar o pecado — mas mostrando compaixão.
- Ele chama mulheres para o discipulado (Lucas 8:1-3), algo revolucionário para a época.
Se você quer saber se Deus é machista, olhe para Jesus.
A Confusão entre Bíblia e Religião
Um ponto importante: Religião é uma criação humana. Deus é outra coisa.
O que muita gente rejeita não é Deus, mas a hipocrisia religiosa, o abuso clerical, a má interpretação. Mas isso não é culpa da Bíblia. É culpa de quem a distorce para se beneficiar.
Como está escrito:
“Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.” — Mateus 22:29
Conclusão: A Bíblia Não é Machista. O Julgamento É que é Ignorante
A Bíblia não é um manual de opressão. Ela é um registro histórico, espiritual e revelacional, que mostra um Deus guiando o ser humano desde o caos tribal até a maturidade moral do Evangelho.
Acusar Deus de machismo é fácil quando se lê superficialmente, desconsiderando contexto, idioma, cultura e intenção do texto.
Quem faz isso, na verdade, revela mais revolta pessoal do que honestidade intelectual. E muitas vezes, essa revolta vem da frustração com instituições humanas — não com o Deus verdadeiro.
Bloco Extra: O Perigo do Anacronismo Moral
Julgar personagens e leis do Antigo Testamento com o padrão moral moderno é como rir de um bebê por não saber escrever. É imaturo. É desonesto.
Deus nos conduz de forma progressiva porque sabe que um ser humano limitado não consegue absorver tudo de uma vez. E se Ele fosse aplicar Seu juízo imediato ao mundo de então, ninguém teria sobrevivido.
Se este artigo te ajudou a entender melhor a Bíblia, compartilhe. E antes de chamar Deus de machista, pelo menos leia o que Ele realmente disse.











