O grito das raízes
O Blues não é apenas um estilo musical. É um lamento. Um desabafo. Um grito da alma de um povo oprimido que, através das cordas, das palmas e das vozes roucas, transformou dor em arte — e arte em revolução cultural. Se hoje o mundo dança, sente e vibra com o rock, jazz, soul, R&B e até o hip hop, muito se deve à base construída pelo Blues. Mas de onde ele veio? Como surgiu? E que caminhos ele pavimentou?
Onde tudo começou: raízes africanas no solo americano
O Blues nasceu no final do século XIX, no sul dos Estados Unidos, mais precisamente na região do Delta do Mississippi. Foi o fruto da fusão entre os cânticos espirituais africanos, os field hollers (gritos de trabalho) dos escravos e as baladas folclóricas europeias.
Não era música de palco. Era música de fazenda, de senzala, de calçada. Uma forma de expressar tristeza, resistência e, curiosamente, esperança.
Antes da guitarra: os instrumentos primordiais
Antes da guitarra elétrica brilhar nos palcos com solos icônicos, o Blues era tocado com o que havia à mão:
- Didley bow: uma corda esticada em uma tábua ou parede. Um instrumento rudimentar que já mostrava a criatividade musical.
- Harmônica (gaita de boca): portátil, expressiva e com um som que chora.
- Banjo: de origem africana, foi muito usado nos primeiros tempos.
- Violão (acústico): com afinações abertas (open tuning) e uso de slide (tubo de metal ou vidro), tornou-se o carro-chefe do Delta Blues.
- Washboard (tábua de lavar) e jug (jarro): literalmente utensílios de cozinha viraram percussão e sopro.
A escala mágica: a pentatônica e o nascimento do som do Blues
O Blues, em sua essência, se baseia na escala pentatônica menor, com um toque especial: a “blue note”, uma nota levemente alterada que cria aquela sensação de dor e melancolia. Essa mistura gerou um som único, que moldou a base da música moderna.
Curiosidade: A blue note geralmente está entre a terça menor e maior ou entre a quinta justa e diminuta, e é o tempero especial que dá o tom “suingado” e chorado ao Blues.
Estilos musicais influenciados diretamente pelo Blues
O Blues é o ancestral direto — e às vezes o pai assumido — de diversos estilos:
- Rock and Roll (Chuck Berry, Elvis Presley)
- Jazz (Miles Davis, John Coltrane)
- R&B / Soul (Ray Charles, Aretha Franklin)
- Funk (James Brown)
- Gospel contemporâneo
- Hip Hop (usando samples e estruturas líricas do blues)
Lendas e ícones do Blues
Os pioneiros:
- Robert Johnson – o mito do pacto com o diabo. Seu estilo influenciou gerações inteiras.
- Son House – o mestre da intensidade emocional.
- Charley Patton – o pai do Delta Blues.
A era de Chicago:
- Muddy Waters – o responsável por eletrificar o Blues.
- Howlin’ Wolf – um dos vocais mais potentes e selvagens do estilo.
- Willie Dixon – compositor e baixista lendário.
Transição para o rock:
- B.B. King – com sua guitarra “Lucille”, definiu o som do blues moderno.
- Albert King – mestre dos bends, influenciou Hendrix e Stevie Ray Vaughan.
- Stevie Ray Vaughan – o texano que ressuscitou o blues nos anos 80.
Curiosidades marcantes
- Acordes e estrutura: o blues tradicional é construído em 12 compassos, com uma progressão I-IV-V simples e poderosa.
- Robert Johnson gravou apenas 29 músicas em vida, mas sua influência é comparável à de Beatles e Dylan.
- “Crossroads” é uma das músicas mais regravadas da história, por conta do seu mito e estrutura forte.
- Blues britânico? Sim! Artistas como Eric Clapton, Led Zeppelin e Rolling Stones reverenciaram o blues americano, regravando e reinterpretando os clássicos.
Bloco Extra: Os mitos e pactos do Blues
Poucos gêneros musicais carregam tanta mística quanto o blues. Há lendas de pactos com o diabo, encontros à meia-noite em encruzilhadas e vozes sussurradas em gravações antigas.
O maior de todos? Robert Johnson. Segundo a lenda, ele era um músico medíocre até sumir por um tempo e reaparecer tocando como um deus. O motivo? Teria feito um pacto com o diabo na encruzilhada da Highway 61 com a 49, em Clarksdale, Mississippi.
Outros também carregam histórias estranhas:
- Tommy Johnson (sem parentesco com Robert) dizia abertamente que vendeu a alma.
- Skip James tinha um timbre sombrio e falava sobre visões estranhas ao compor.
- Led Zeppelin, que adaptou o blues ao hard rock, também é envolvido em boatos sobrenaturais, especialmente por Jimmy Page e sua obsessão com o ocultismo.
O Blues vive — em cada nota sentida
O Blues jamais foi apenas música. Foi catarse, foi protesto, foi sobrevivência. Nasceu como um sussurro em meio ao sofrimento, cresceu como grito de liberdade, e hoje ecoa em quase tudo o que ouvimos.
Se você já se emocionou com uma nota arrastada, uma letra que parece ter sido escrita para a sua dor, ou uma melodia que te levou pra outro tempo — então você já sentiu o Blues. E, como dizem os velhos mestres: “se você não sente, não adianta explicar. Mas se sentiu… bem-vindo ao clube.”











