A máxima “O Brasil é o país do futuro” ecoa há décadas no imaginário nacional, um paradoxo que oscila entre a esperança e a frustração. Originalmente cunhada com um tom de admiração e expectativa, a frase, que ressoa desde os idos de 1942, transformou-se em um lamento irônico, frequentemente proferido diante de crises e adversidades que parecem infindáveis. Essa perspectiva projeta a prosperidade para um horizonte distante, um amanhã sempre postergado, enquanto o presente se desenrola em meio a desafios complexos. Instituições financeiras internacionais, há cerca de vinte anos, chegaram a apontar uma “janela de oportunidade” para o Brasil ascender ao patamar de grande potência emergente, reforçando a crença em um destino grandioso. Contudo, essa narrativa de um futuro promissor, atrelada a ações “prudentes” e “sustentáveis”, levanta questionamentos sobre a concretização dessas visões e os mecanismos que as mantêm como meras projeções, em vez de realidades tangíveis para a sociedade brasileira.
A Persistência Da Promessa E A Análise Crítica
O legado da esperança adiada e a retórica especializada
A frase que designa o Brasil como o “país do futuro” transcendeu o contexto de sua origem para se consolidar como um bordão que, paradoxalmente, reflete tanto a inesgotável capacidade de esperança quanto uma persistente evasão das realidades do presente. Em momentos de crise ou desilusão, a repetição dessa máxima serve como um consolo coletivo, uma crença de que as adversidades atuais são apenas uma etapa transitória rumo a um porvir inevitavelmente melhor. Essa mentalidade de adiamento permeia diversas esferas, incluindo a econômica. Análises de organismos internacionais e de especialistas, por exemplo, regularmente identificam “janelas de oportunidade” ou delineiam cenários futuros de crescimento e desenvolvimento. Tais avaliações costumam vir acompanhadas de recomendações sobre “ações prudentes” capazes de pavimentar o caminho para uma “sociedade mais próspera, inclusiva e sustentável”.
No entanto, a linguagem empregada nesses prognósticos, muitas vezes carregada de termos condicionais e abstratos, suscita ceticismo. A insistência em um futuro promissor, desvinculado de uma articulação clara e imediata de soluções para os problemas contemporâneos, assemelha-se a um discurso que, embora inspirador, carece de urgência e concretude. Especialistas que abordam o desenvolvimento com tamanha cautela e abstração podem, inadvertidamente, alimentar a percepção de que as soluções reais estão sempre em um horizonte distante, enquanto a “cura” para os males sociais e econômicos nunca chega a tempo para as gerações presentes. A máxima do economista John Maynard Keynes, de que “a longo prazo estaremos todos mortos”, ressoa como um lembrete incisivo da efemeridade do tempo e da necessidade de ações eficazes no curto e médio prazos, sem depender exclusivamente de promessas de um futuro indefinido.
Mecanismos Políticos E Econômicos Da Perpetuação
A instrumentalização do discurso de desenvolvimento para ganhos políticos
A narrativa do “país do futuro” e das “janelas de oportunidade” é frequentemente instrumentalizada no cenário político, servindo como um catalisador para justificar novas ondas de gastos públicos e programas de governo. Políticos, em sua busca por legitimidade e reeleição, especialmente em anos eleitorais, frequentemente ressuscitam essas promessas de desenvolvimento, apresentando planos ambiciosos para a “retomada do crescimento econômico”. A estratégia por trás dessas iniciativas é elaborada e, muitas vezes, cíclica. Inicialmente, especialistas, munidos de projeções complexas e modelos econométricos, municiam a imprensa com dados e análises que parecem indicar um caminho claro para a prosperidade. A imprensa, por sua vez, assume o papel de transmitir essa visão ao público, traduzindo conceitos técnicos em uma linguagem acessível que, muitas vezes, realça o otimismo.
Contudo, essa engrenagem de comunicação e expectativa pode ter um duplo propósito. As ideias abstratas e as promessas de um futuro melhor, embora não raro desprovidas de detalhamento prático e de compromisso tangível, servem para legitimar uma série de medidas impopulares ou de interesse particular. Entre elas, destacam-se a imposição de aumentos de impostos, a possibilidade de confisco de poupanças e, de forma mais insidiosa, a distribuição de verbas e subsídios fiscais generosos a empresários e setores econômicos que apoiam o governo vigente. Nesse contexto, a “janela de oportunidade” se restringe a um grupo seleto, desviando-se da proposta de uma prosperidade ampla e inclusiva. A construção de uma sociedade genuinamente “próspera, inclusiva e sustentável” é frequentemente eclipsada por manobras políticas e econômicas que perpetuam um ciclo de promessas não cumpridas e benefícios concentrados, minando a confiança pública e atrasando o verdadeiro avanço social.
Desafios Estruturais E A Realidade Da Governança
A persistente citação de relatórios de especialistas e organismos internacionais pelos políticos, embora possa conferir um verniz de seriedade às suas propostas, muitas vezes se traduz em uma forma conveniente de justificar ineficiências e desviar a atenção das responsabilidades primárias de governar. Em vez de se dedicarem à resolução dos problemas estruturais que afligem a população – como a precarização dos serviços públicos, a desigualdade social e a instabilidade econômica –, muitos agentes políticos parecem mais empenhados em assegurar seus próprios interesses. A busca por emendas parlamentares para consolidar bases eleitorais e a incessante perseguição à reeleição em seus “feudos” eleitorais tornam-se prioridades, em detrimento do compromisso com o desenvolvimento econômico e social prometido.
Esse desvio de foco gera um preocupante retrocesso na qualidade da governança. O discurso tecnocrático, repleto de “cálculos de variáveis complexas” e “ideias abstratas” que deveriam guiar o país para um futuro melhor, acaba por se desdobrar em uma política rudimentar, marcada por práticas clientelistas e, em muitos casos, por atos de corrupção explícita. Incidentes como fraudes financeiras, esquemas de desvio de fundos públicos, as famigeradas “rachadinhas” e contratos milionários questionáveis com entes relacionados a figuras de alto escalão, ilustram a distância abissal entre o ideal de uma nação próspera e a realidade de uma administração pública que frequentemente falha em servir ao bem comum. A ironia da afirmação “O Brasil é, definitivamente, o país do futuro” se solidifica nesse cenário, sugerindo que o futuro, ao invés de um destino a ser alcançado, tornou-se uma desculpa perene para a estagnação e a perpetuação de um sistema que, apesar de suas promessas, continua a adiar as aspirações de uma sociedade mais justa e equitativa.
Fonte: https://www.naoeimprensa.com











