Contrastes Cruéis: o Brasil dos Festivais Caros e dos Buracos Sem Esgoto
Em 2025, o governo da Bahia desembolsou R$ 19,85 milhões só em cachês para artistas no São João de Salvador. Simone Mendes recebeu R$ 800 mil, Leonardo, R$ 750 mil, e Pablo, R$ 550 mil. Foram 169 atrações bancadas com dinheiro público. Enquanto isso, a cidade de Mossoró (RN) destinou mais de R$ 20,6 milhões em contratos com artistas para o Mossoró Cidade Junina — entre eles, R$ 1 milhão só para Wesley Safadão.
E não para por aí: o Rio Grande do Norte, em 2024, já havia ultrapassado R$ 100 milhões em gastos com shows pagos por prefeituras ao longo do ano. Aracaju (SE) também entrou na dança, com R$ 6,6 milhões gastos só nas atrações da festa junina. E tudo isso vem sendo escancarado pela mídia, mas nada muda.
Ao mesmo tempo, o Brasil continua com esgoto correndo a céu aberto em plena luz do dia. O Censo 2022 mostrou que apenas 62,5% da população tem acesso à rede coletora de esgoto. Isso significa que mais de 35 milhões de brasileiros ainda lidam com valas, fossas rudimentares e o velho “cocô no mato”. Em pleno século 21.
Palco com LED, mas sem vaso sanitário
Como explicar que em um país onde milhares de escolas públicas não têm banheiro adequado, prefeituras tenham recursos de sobra para cachês milionários? A resposta está na política do “espetáculo”: fazer barulho, tirar foto ao lado de famoso, gerar manchete, story e voto.
Esses shows não são sobre “cultura popular”, como tanto se defende. São palanques eleitorais camuflados, pensados para marketing político. É o populismo dançando ao som de sertanejo universitário.
A conta é simples:
- R$ 800 mil para um show que dura 1 hora,
- enquanto milhares de crianças fazem xixi no chão da escola porque não tem banheiro.
O Brasil que canta e não pensa
Enquanto você curte o show, há uma criança pegando infecção de pele por brincar perto do esgoto.
Enquanto você tira selfie com balões de São João, há um idoso pegando leptospirose por falta de saneamento.
Enquanto o prefeito sorri ao lado do artista, a cidade inteira continua sem tratamento de esgoto.
E pior: o povo aplaude. Porque não sabe, ou não quer saber, o quanto foi pago. Porque acredita que “pelo menos tem festa”. Porque confunde entretenimento com dignidade.
Mas quem é o culpado?
O político que aprova esse gasto irresponsável? Com certeza.
Mas também o povo que não cobra prestação de contas, que não liga para transparência, e que só quer saber se o artista “vai cantar tal música”.
E os artistas? Muitos dizem que “não têm culpa”, mas recebem o dinheiro sem questionar de onde veio. Não seria o caso de ao menos recusar ou exigir que as cidades tenham estrutura mínima antes de aceitar contrato?
Dados que envergonham
- 3 em cada 10 brasileiros ainda vivem sem rede de esgoto (IBGE, PNAD 2023).
- 7,2 milhões de crianças entre 0 e 6 anos vivem sem esgoto em casa.
- 618 mil vivem sem nem sequer água canalizada.
- O Brasil investe 3x mais em shows públicos do que em manutenção básica de escolas em muitas cidades pequenas.
- E, ainda assim, a prioridade continua sendo contratar cantor famoso para “lotar a praça”.
Conclusão: é o Brasil do palco e do poço
Não é que o Brasil não tem dinheiro. O Brasil tem, mas prefere gastar com som e luz, enquanto o povo segue no escuro — e na lama.
Se você mora em um lugar sem saneamento básico e a prefeitura gasta milhões com festa, você não está sendo valorizado. Está sendo enganado. Está sendo comprado com luz de palco e fumaça de show.
E você?
Está disposto a continuar cantando enquanto caga no buraco?
Ou vai começar a cobrar banheiro com descarga antes de exigir artista com música nova?
Porque a verdade é dura: a dignidade fede quando o esgoto está escancarado — mas o povo finge que não sente o cheiro quando o som está alto.
Bloco Extra: Arthur do Val, Wesley Safadão, e o culto ao cinismo público
Recentemente, Arthur do Val causou rebuliço ao reagir a um vídeo em que Wesley Safadão elogiava o programa “Maranhão Livre da Fome” durante um show custeado por emendas parlamentares públicas no estado. Safadão agradecia à prefeita e a deputados pelo uso dessas emendas para contratá-lo — dinheiro público destinado a festa e não ao essencial.
Em sua fala, Arthur não atacou o povo do Maranhão pelo fato de ser maranhense. Ele criticou explicitamente a plateia que aplaudia o uso eleitoral e midiático dessas emendas, sem questionar a falta de saneamento ou investimento real na cidade. Ele disse:
“Gente muito burra, gente filha da p…, retardada… aplaude quando um deputado vai lá e fala — ‘trouxe emenda parlamentar pra trazer o Wesley e já firmo compromisso de trazer no ano que vem’ — e a galera aplaude, velho”
Ou seja, a crítica era ao padrão de voto e consumo cultural — aplaudir artista caríssimo financiado com dinheiro público enquanto vive no barro — e não à identidade regional dos espectadores.
Mas, como é típico nesse Brasil da interpretação rasa, a reação imediata foi encerrar o debate ao rotulá-lo de xenófobo. O complexo de vitimização ativou-se: qualquer crítica é vista como ataque cultural.
Não se trata de maranhofobia, mas de negação da lógica: financiar espetáculo anunciando “cultura” enquanto o básico — como esgoto e saúde — continua invisível. E quem aponta essa distorção é acusado de preconceito, não de coerência política.











