Se você viveu os anos 80 ou 90, sabe que o sertanejo já foi sinônimo de qualidade musical, harmonia vocal, composições emocionantes e artistas com timbre, técnica e personalidade. O que temos hoje? Uma enxurrada de músicas enlatadas, com letras rasas, temas reciclados à exaustão e vozes que mais parecem estar com uma batata quente entalada na garganta. A pergunta que não quer calar é: como fomos parar nesse brejo?

Do sertanejo raiz ao universitário sem diploma
O sertanejo nasceu como uma expressão da alma rural brasileira. Compositores como Tião Carreiro, Tonico e Tinoco, e mais tarde Milionário & José Rico e João Mineiro & Marciano contavam histórias do interior, do amor sofrido, da vida no campo — letras com alma e significado, acompanhadas de arranjos que valorizavam a viola, o acordeon e a emoção genuína.
Nos anos 80 e 90, chegou a chamada “era de ouro” com Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo, Chrystian & Ralf, João Paulo & Daniel — todos com grande talento vocal e composições memoráveis. A música sertaneja ganhou o país, mas manteve a qualidade. Era comercial, sim, mas sem perder a essência.
Com o tempo, o estilo começou a se desfigurar.
A pasteurização do som: clones, gemidos e clichês
O que se chama de “sertanejo universitário” começou até com boas intenções — simplificar a música para agradar os jovens. Mas virou um ciclo vicioso e sem criatividade, onde as letras se dividem entre três categorias básicas:
- “Fui corno de novo”
- “Tô bebendo todas”
- “Olha meu carro, minha grana e minha mulher gostosa”
E tudo isso cantado com uma voz nasal gemida, que parece saída de uma mistura de autotune com resfriado. Jorge e Mateus, Gusttavo Lima, Henrique & Juliano, Zé Neto & Cristiano… tudo com a mesma fórmula de timbre entalado, melodias genéricas e letras que não resistem a dois segundos de análise crítica.
Há ainda um elemento preocupante: a uniformização dos artistas. Todos parecem sair da mesma fábrica: barba por fazer, chapéu estilizado, camiseta apertada e o combo “emoção forçada + beat eletrônico + voz com batata na garganta”. É o sertanejo fast food.
A perda da identidade regional
Outro fator é que o novo sertanejo perdeu qualquer relação com suas origens. Não há mais nenhuma ligação com o campo, a roça, a simplicidade. Agora é tudo sobre ostentação, bebida, pegação e sofrência plastificada. A alma foi trocada por marketing.
Enquanto isso, bons músicos, bons compositores e verdadeiros intérpretes são engolidos pela máquina que só quer vender show, vender bebida e bater 100 milhões de views com um refrão grudento e um clipe cheio de “mulheres padrão Instagram”.
Bloco Extra: Nem tudo está perdido — os que ainda cantam DE VERDADE
Felizmente, alguns nomes ainda resistem com talento vocal, harmonia e musicalidade. Casos como:
Marcos e Belutti
Uma das poucas duplas atuais que realmente sabem cantar. Ambos são primeiras vozes — o que é raro — e conseguem entregar duetos afinados, fortes e que não dependem de efeitos. Se arriscam no samba, pop, romântico e mostram versatilidade.
Eles são músicos de verdade, não apenas produtos da indústria. Tocam, compõem, sentem a música. E o mais importante: não gemem, não desafinam, não usam o corno como tema central de tudo.
Cristiano Araújo (in memoriam)
Cristiano foi um ponto fora da curva. Sua potência vocal e presença de palco chamavam atenção até de quem não era fã de sertanejo. Tinha personalidade vocal, afinação impecável, repertório variado e estava no caminho de se tornar um dos grandes. Sua morte foi não só uma tragédia pessoal, mas uma perda imensa para o futuro da música sertaneja de qualidade.
Outros nomes também tentam manter certa integridade artística, como Victor & Leo (em sua fase original), Eduardo Costa (quando não está em polêmica), Matogrosso & Mathias (mais antigos, mas ainda ativos). Mas são minoria.
Bloco Extra 2: Zezé Di Camargo & Luciano — quando o sertanejo era arte
Se existe uma dupla que ajudou a moldar o auge da música sertaneja nos anos 90, é Zezé Di Camargo & Luciano. Em sua época de ouro, Zezé era um dos maiores cantores do país: afinado, com potência, alcance vocal impressionante e um timbre marcante. E não só cantava — compunha com maestria, escrevendo letras que viraram trilhas sonoras de uma geração inteira.
Músicas como:
- “É o Amor”
- “Pão de Mel”
- “Você Vai Ver”
- “No Dia em Que Eu Saí de Casa”
- “Dois Corações e Uma História”
- “Preciso Ser Amado”
- “Como um Anjo”
Essas canções têm melodia, têm letra com história, têm ARRANJO. E aqui vale destacar outro gigante por trás desse sucesso: o guitarrista Piska, responsável por criar um estilo de solos de guitarra únicos para o sertanejo romântico. Aqueles solos melódicos, que parecem cantar junto com a voz, têm a assinatura dele. Piska deu identidade sonora à dupla — algo que quase nenhuma dupla atual tem. Hoje, é tudo base genérica de teclado e loop.
Sim, é verdade: hoje Zezé Di Camargo canta mal. E não é hate gratuito — é realidade vocal. Seu estilo de cantar no limite do agudo, forçando a voz, infelizmente não envelheceu bem, e isso é fisiológico. Ele perdeu qualidade, principalmente após os problemas nas cordas vocais. Mas é justo dizer: o cara mandou muito bem por anos e entregou músicas atemporais.
Zezé no auge era potência, era alma, era o reflexo de uma época em que a técnica vocal e o sentimento caminhavam juntos. E mesmo com a decadência atual da voz, sua contribuição continua imensurável.
E agora?
A música sertaneja está em crise de identidade. O público, que muitas vezes não exige qualidade, tem sua parcela de culpa. A indústria, claro, também — prefere vender o que dá lucro rápido do que investir em vozes e letras que toquem a alma.
É hora de repensar: queremos consumir música ou apenas entretenimento descartável? Porque o que está em jogo não é só a nostalgia dos bons tempos, mas a própria cultura musical brasileira, que sempre teve no sertanejo um dos seus pilares.
Se você, como nós, sente falta da emoção verdadeira, da voz afinada, da composição com alma — não se conforme com o medíocre. Ouça, compartilhe e valorize os artistas que ainda respeitam a música. Eles existem, mesmo que em menor número. E enquanto houver público que valorize o bom e rejeite o artificial, a música sertaneja ainda pode ter salvação.











