A existência (ou não) de Deus: conceito, ciência, falácias e a era da descrença

Vamos fazer uma introdução explicando de onde veio a ideia de esclarecer sobre esse tema complexo da existência ou não de Deus. Esses dias eu estava navegando no Instagram e me deparei com um perfil ateu, dedicado a memes que confrontam a crença em Deus. Lá encontrei uma das falas mais comuns entre ateus e também uma das mais fáceis de refutar. Em resumo, essa fala dizia: “Que tipo de Deus é esse que, no dilúvio, matou inocentes como mulheres, grávidas, crianças e bebês?”. O fato de adicionarem esse peso social — mulheres grávidas, crianças e bebês — é a tentativa mais comum de transformar Deus em um monstro. Inclusive, o meme se referia a Ele dessa forma. Bem, eu estava com tempo e resolvi responder de maneira irônica, afirmando que esse tipo de fala é tão fácil de desconstruir que, geralmente, toda vez que entro em debate nesse ponto, eu derrubo meu oponente com tranquilidade.

A resposta mais interessante veio de alguém que me pediu “evidências científicas sobre a existência da religião”. Ora, qualquer um com um mínimo de racionalidade sabe que, independentemente da crença em Deus, a religião existe de fato e está presente na história da sociedade. Entendi que ela havia se confundido, tirei um sarro, mas percebi que, no fundo, ela queria alguma evidência científica sobre a existência de Deus. Foi então que tentei chamá-la para um debate, mas após várias fugas e ataques ad hominem, ficou claro que não haveria diálogo. Assim, ainda nos comentários, apresentei minha visão resumida sobre o conceito de Deus e sua aplicação nas narrativas bíblicas, não só no dilúvio, mas em toda a Escritura.

Eu não posso provar cientificamente que Deus existe, assim como você não pode provar que Ele não existe. Esse tipo de “carta” não pode ser colocado na mesa, porque pertence ao campo das crenças e da filosofia. Eu acredito, você não. Mas vamos à questão levantada no comentário: o post se referia ao Deus da Bíblia, que teria matado pessoas no dilúvio, inclusive crianças e bebês. Esse é um dos argumentos mais clássicos do ateísmo e, ao mesmo tempo, um dos mais frágeis. Para conversarmos sobre isso, precisamos assumir o que o próprio ateu propôs: “fingir” que Deus existe e que as histórias bíblicas são verdadeiras. Dentro desse cenário, precisamos entender o conceito de Deus.

Deus, por definição, é um ser superior, não humano, ilimitado pelas regras humanas, criador de tudo o que existe. Se existe, Ele é todo-poderoso, capaz de criar e destruir, de dar a vida e de tirá-la. Então, se Ele decidiu eliminar vidas, inclusive de crianças, por que deveríamos questionar? Afinal, Ele é Deus. Julgar Deus com parâmetros humanos é incoerente, porque o próprio conceito de Deus implica soberania absoluta. Voltando ao campo real: se você não acredita em Deus, então também não acredita na Bíblia. Logo, para você, essas histórias nunca aconteceram, foram apenas relatos antigos escritos por homens. Se é assim, por que criticar Deus como se fosse um assassino, se, para você, Ele sequer existe? Não seria mais coerente criticar os homens do passado que escreveram esses textos? Essa contradição é uma das maiores falácias ateístas: negar a existência de Deus e, ao mesmo tempo, gastar energia para criticá-Lo.

Link para o post original com minha resposta, as respostas que recebi e a tentativa de debater o assunto:

https://www.instagram.com/p/DKNFT6wNzRH

O erro lógico de “transformar Deus em homem”

Grande parte do ataque popular ao teísmo comete uma confusão de categorias: trata o conceito clássico de Deus (ser transcendente, criador, causa primeira) como se fosse um agente humano sujeito aos mesmos limites e obrigações morais que nós. Isso é um erro de categoria. Se estamos, mesmo hipoteticamente, analisando “Deus” enquanto Deus, então por definição Ele não está sob julgamento humano. É possível criticar interpretações humanas, tradições e leituras; mas antropomorfizar Deus para torná-Lo culpável como um tirano humano é um truque retórico — não uma refutação filosófica.

Ônus da prova simétrico

Pedir “provas laboratoriais” da existência de Deus e, simultaneamente, isentar-se de oferecer provas da não existência de Deus é uma assimetria injustificada. O debate sério reconhece que estamos em domínio metafísico: tanto o teísmo quanto o ateísmo fortes fazem afirmações abrangentes sobre a realidade. Exigir de um lado aquilo que o outro não consegue (nem pretende) fornecer do mesmo modo é uma falácia de ônus da prova.

O que dizem cientistas e filósofos de renome

Há pesquisadores de ponta que não viram conflitos fatais entre ciência e fé — alguns defendem explicitamente que a crença é racional; outros apontam “sinais” no cosmos compatíveis com um propósito.

Francis Collins, médico/geneticista que liderou o Projeto Genoma Humano e ex-diretor do NIH, narra sua trajetória do ateísmo à fé e sustenta que ciência e crença em Deus são compatíveis; em entrevistas e livros, discute inclusive o ajuste fino do universo como dado que merece consideração filosófica, sem negar a evolução biológica. Pew Research Center+2The Singju Post+2

John Polkinghorne, físico de partículas de Cambridge (e depois sacerdote anglicano), escreveu sobre a especificidade das leis naturais e avaliou explicações concorrentes para o fine-tuning: multiverso versus criação. Ele trata o ajuste fino como um dado legítimo que pode sustentar uma leitura teísta do mundo. Faraday+2Jesus Lightworker+2

Luke A. Barnes, astrofísico, publicou revisões técnicas sobre o ajuste fino em periódicos e no arXiv, mapeando casos onde pequenas variações em constantes físicas inviabilizariam átomos, estrelas e vida. Barnes não “prova Deus”; ele documenta a sensibilidade das condições — dado frequentemente citado em debates teísmo/multiverso. Cambridge University Press & Assessment+2arXiv+2

Paul Davies, físico e Prêmio Templeton, ressalta a ordem notável do cosmos e a “compreensibilidade” das leis; em sua palestra do Templeton, conversa justamente sobre a ideia — historicamente presente — de um mundo livremente criado e ordenado, e o fascínio de Einstein com a pergunta “Deus teve escolha na criação?”. Templeton Prize

Richard Swinburne, filósofo de Oxford, defende em The Existence of God uma abordagem indutiva/probabilística (via Bayes) segundo a qual o teísmo é, no conjunto das evidências, mais provável que a negação — incluindo dados sobre leis simples, consciência, moralidade e regularidade do universo. Wikipedia+1

Alvin Plantinga, um dos filósofos mais citados do séc. XX, argumenta que a crença em Deus pode ser “propriamente básica”: racional sem depender de prova dedutiva, análoga a confiar em memória/percepção quando funcionam adequadamente (teoria do “funcionamento adequado”). Enciclopédia de Filosofia de Stanford+1

Sobre Albert Einstein, é comum haver citações fora de contexto. Ele não defendia um “Deus pessoal” tradicional, mas também rejeitou o rótulo “ateu” em várias ocasiões e falava de um “Deus de Spinoza” e de uma ordem racional profunda na natureza; sua famosa “carta de Deus” de 1954 mostra ceticismo sobre religião revelada. Ou seja: não é exemplo simples para nenhum lado — e justamente por isso é importante citar fontes com cuidado. Wikipedia+1

O que é, afinal, “ajuste fino” — e por que isso importa

O termo descreve a sensibilidade de várias constantes/condições iniciais: altere minimamente e não há estrelas estáveis, química complexa, ou tempo de vida cósmico suficiente para a evolução. Esse panorama é documentado em revisões técnicas (Barnes, Rees, etc.) e frequentemente gera duas linhas principais de explicação: multiverso (muitos universos com parâmetros variados; nós existimos no “compatível”) ou criação/propósito. A ciência, como ciência, não conclui “Deus”; mas o quadro é, no mínimo, consistente com uma leitura finalista. Cambridge University Press & Assessment+1

Consciência e moralidade: por que aparecem no debate

Mesmo que a biologia evolutiva explique comportamentos morais, muitos filósofos notam que isso não garante um fundamento objetivo para o valor moral — e é aqui que o teísmo é frequentemente proposto como “solo metafísico” para valores e deveres morais objetivos. Em epistemologia da religião, Plantinga e outros mostram como experiências não-inferenciais (consciência de Deus) podem ser, em princípio, racionalmente básicas. Enciclopédia de Filosofia de Stanford+1

A incoerência prática: “não creio em Deus, mas condeno Deus”

Se alguém nega que Deus exista, então, para essa pessoa, os relatos bíblicos seriam apenas textos humanos. Nesse caso, a crítica coerente deveria mirar pessoas e tradições — não um ser que, por hipótese do próprio crítico, não existe. O movimento de negar a existência e, simultaneamente, imputar crimes ao inexistente, só faz sentido retoricamente. Filosoficamente, é um tiro no pé.

Um olhar bíblico sobre épocas de ceticismo

A Bíblia reconhece períodos de descrença e zombaria, e os trata como parte do drama humano:
“Diz o insensato no seu coração: Não há Deus” (Sl 14:1; 53:1).
“Nos últimos dias virão escarnecedores… dizendo: onde está a promessa da sua vinda?” (2Pe 3:3-4).
— Em Atos 17, Paulo dialoga com epicureus e estóicos em Atenas — um ambiente intelectual plural e cético —, e fundamenta o discurso na criação e na ressurreição, mostrando que a fé cristã sempre se propôs a dialogar com a razão.
João 20 registra o ceticismo de Tomé e como a fé bíblica não é “fé cega”, mas resposta a sinais/testemunho.
— Em Juízes 21:25, numa época de relativismo moral, “cada um fazia o que parecia direito aos seus próprios olhos”.
Romanos 1 descreve a tendência humana de ofuscar o reconhecimento do Criador apesar de “atributos invisíveis… claramente vistos”.

Essas passagens não “provam Deus” no laboratório; elas mapeiam a dinâmica espiritual e cultural de épocas em que a verdade é relativizada, a moral é subjetivada e a transcendência é ridicularizada — quadro que conversa com a nossa era.

Colocando as peças juntas

Se aceitarmos — ainda que hipoteticamente — o conceito de Deus, então julgá-Lo por padrões humanos equivale a mudar as regras do jogo no meio do debate. Se negarmos Deus, é incoerente acusá-Lo de crimes. Entre uma e outra ponta, a ciência contemporânea descreve um universo surpreendentemente ordenado e ajustado para a vida, e uma comunidade de cientistas e filósofos sérios (crentes e não-crentes) reconhece que aqui há questões metafísicas legítimas. O resultado não é “prova” no sentido experimental, mas um quadro de plausibilidade no qual o teísmo permanece racional — e, para muitos, intelectualmente convincente.

Referências selecionadas (formato APA, com leituras de qualidade)

Collins, F. (2006). The Language of God: A Scientist Presents Evidence for Belief. New York: Free Press. (Entrevista de referência: Pew Research Center, 2008). Pew Research Center

Polkinghorne, J. (2005). The Anthropic Principle and the Science and Religion Debate (Faraday Paper 4). The Faraday Institute. (Discussão de ajuste fino, multiverso e criação). Faraday

Polkinghorne, J. (1996). So Finely Tuned a Universe… (palestra/ensaio discutindo fine-tuning). Jesus Lightworker

Barnes, L. A. (2012). The fine-tuning of the universe for intelligent life. Publications of the Astronomical Society of Australia, 29, 529–564. (Versão Cambridge e arXiv). Cambridge University Press & Assessment+1

Davies, P. (1992). The Mind of God. New York: Simon & Schuster. (Veja também o discurso do Templeton Prize sobre criação e ordem). Templeton Prize

Swinburne, R. (2004). The Existence of God (2nd ed.). Oxford: Clarendon Press. (Síntese e resenhas acadêmicas disponíveis). Wikipedia+1

Plantinga, A. (2000). Warranted Christian Belief. Oxford: Oxford University Press. (Ver Stanford Encyclopedia para síntese de “crença propriamente básica”). Enciclopédia de Filosofia de Stanford

Einstein, A. (cartas e declarações sobre religião e “Deus de Spinoza”; cuidado com recortes). Ver compilações e a chamada “God Letter” (1954). Wikipedia+1

Observação: declarações atribuídas a Allan Sandage sobre “design” e sua conversão circulam em diversos relatos devocionais. São úteis como testemunho, mas cito com reserva quando não há publicação acadêmica/entrevista primária diretamente verificável. (Leituras panorâmicas recentes existem, porém são de blogs/devocionais e não periódicos técnicos.)

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