Aproveitando que já está na época de iniciar o hype para esse delírio de emburrecimento, é urgente dissecar o fenômeno que sequestra a pauta nacional todo início de ano. Há mais de duas décadas, o Brasil capitulou diante de um formato televisivo que, em qualquer sociedade minimamente intelectualizada, seria apenas uma curiosidade antropológica passageira. Aqui, virou religião. O reality show deixou de ser entretenimento para se tornar um culto à mediocridade, uma ferramenta eficiente de lobotomia coletiva que opera em horário nobre. A pergunta que incomoda e que poucos ousam responder com honestidade é: por quê? Por que uma nação com tantas carências educacionais e culturais escolhe, voluntariamente, mergulhar na irrelevância e transformar o nada em “conteúdo”?
A Indústria da Fama Oca
O reality show no Brasil institucionalizou o “atalho para o sucesso”. Estabeleceu-se a premissa nefasta de que mérito, estudo e talento são dispensáveis. Gente anônima, desprovida de qualquer propósito artístico ou intelectual, e muitas vezes sem a menor envergadura moral, é confinada em casas cenográficas e vendida ao país como “o espelho da sociedade”. O perigo reside na mensagem subliminar: vence quem melhor engana. Vence quem grita mais alto, quem vitimiza a si mesmo com mais competência ou quem manipula as emoções de uma audiência carente de heróis. O resultado é a perpetuação do “influenciador por acidente”, figuras ocas que acumulam milhões de seguidores não por criarem algo de valor, mas por sobreviverem a um jogo de convivência tóxica. E, tragicamente, o público hipnotizado consome esses subprodutos como se fossem caviar.
O Panteão dos Ídolos de Barro
Para entender a profundidade do buraco, basta olhar para quem o Brasil escolhe coroar. A lista de ex-participantes é um cemitério de talentos inexistentes e um museu de personalidades questionáveis.
Kléber Bambam (BBB1): O paciente zero. Venceu conversando com uma boneca de sucata, inaugurando a era da “cafonice carismática”. Tentou ser tudo, de dançarino a fisiculturista. Mas restou ser um eterno meme, o bobo da corte que se acha rei.
Sérgio Abreu (A Fazenda): Lembra dele? Exato. A prova viva de que a fama de reality é fumaça. Sem consistência, a relevância evapora assim que a câmera desliga.
Grazi, Sabrina e Juliana Alves: As exceções estatísticas que confirmam a regra. Precisaram suar sangue e enfrentar o preconceito da classe artística para se provarem, carregando por anos o estigma de “ex-BBB”. São o erro na matriz, não o padrão.
Arthur Aguiar (BBB22): O triunfo da manipulação retórica. Com uma imagem pública estilhaçada por traições, utilizou o programa como lavanderia de reputação. Venceu apostando na amnésia do público e na tática do vitimismo, apenas para ter sua carreira “renascida” engolida novamente pelas mesmas polêmicas vazias.
Davi Brito (BBB24): O sintoma mais agudo da doença atual. Construiu um arquétipo messiânico de “humilde sonhador”, blindado por uma torcida que operava com a ferocidade de uma milícia digital. Bastou o programa acabar para a máscara cair: o “bom moço” revelou-se controverso, com falas problemáticas e atitudes de um cinismo atroz. Ainda assim, é idolatrado por uma massa que briga com a própria família para defender um estranho que não sabe formular uma frase coerente.
A Fetichização da Ignorância
A lógica do algoritmo é brutal: quanto menos cérebro, mais engajamento. Reality shows são a validação do vazio. Assistir a adultos funcionais brigando por feijão, discutindo por louça suja ou performando crises de ciúmes tornou-se o auge do lazer nacional. Transformamos a sociedade em voyeurs de um zoológico humano, onde aplaudimos os primatas que jogam fezes uns nos outros com mais estilo. Enquanto isso, a biblioteca nacional às moscas. O brasileiro médio sabe escalar o elenco de “A Fazenda”, mas desconhece a Constituição, ignora Machado de Assis e abomina a ciência. É o triunfo da futilidade sobre o pensamento crítico.
A Pornocultura e a “Banalização do Afeto”
Se os realities de confinamento insultam a inteligência, os formatos de “pegação” (como De Férias com o Ex e seus clones) são um atentado à dignidade emocional. Aqui, desce-se o último degrau da escada evolutiva. É a pornografia soft disfarçada de “dinâmica social”. O objetivo não é o amor ou a convivência; é o caos, a traição e a exposição carnal. Relacionamentos líquidos, corpos objetificados e a intimidade transformada em moeda de troca por likes. O público assiste, salivando, à espera do próximo edredom balançando, numa espécie de “Oração ao Santo Edredom”. Sexualizou-se a TV para anestesiar o cérebro. E o mais grave: esses participantes, cuja única habilidade é a promiscuidade televisiva, saem dali como “formadores de opinião”, influenciando adolescentes com um vocabulário de 50 palavras e uma profundidade emocional de um pires.
O “Grand Finale”: O Telespectador de Reality é o Eleitor de Amanhã
Aqui reside o verdadeiro terror, o ponto onde a brincadeira deixa de ser inofensiva. Não se iluda achando que o comportamento fanático diante da TV fica restrito à sala de estar. O indivíduo que consome lixo, vota no lixo. A mesma psique que idolatra um “falso profeta” do BBB, que passa panos quentes para comportamentos abusivos dentro de uma casa de vidro e que decide paredões com base em paixões histéricas, é a mesma que vai às urnas decidir o futuro da nação. O treinamento diário de julgar pessoas por edições manipuladas, de ignorar fatos em nome de narrativas e de agir em “efeito manada” nas redes sociais criou um eleitorado incapaz de discernimento. O sujeito que se informa por cortes de fofoca no Instagram é o mesmo que define seu voto por fake news no WhatsApp. Como esperar um país sério, com saúde, educação e segurança de ponta, se a população dedica sua energia mental, seu tempo e até seu dinheiro para enriquecer subcelebridades enquanto o país afunda? Os reality shows não são a causa de todos os nossos males, mas são o sintoma mais febril de uma sociedade doente, que prefere se alienar assistindo à vida alheia do que ter a coragem de consertar a própria realidade. O Brasil não corre o risco de dar errado; ele já deu, e está sendo televisionado ao vivo, com edição 24 horas, para o deleite de quem aplaude a própria decadência.











