O filósofo político Michael Oakeshott, uma voz singular no pensamento conservador do século XX, desdobrou uma crítica incisiva e coerente à direção que a política moderna tomou, marcada pela obsessão por planejamento, controle e a busca por resultados previsíveis. Sua obra questiona profundamente a premissa de que a arte de governar possa ser reduzida à aplicação de métodos racionais e técnicos sobre uma sociedade concebida como uma máquina inerte. Oakeshott observou na modernidade um vício persistente: a crença equivocada de que a gestão pública é meramente a execução de um plano predefinido, como se a complexa tapeçaria social fosse um projeto de engenharia, e não um organismo histórico vibrante, saturado de hábitos arraigados, linguagens em constante evolução, nuances intrincadas e as inerentes contradições da experiência humana. Sua análise oferece lentes valiosas para compreender os desafios contemporâneos da governança e da formação intelectual.
A Crítica ao Racionalismo na Governança
A Ilusão do Planejamento Centralizado e a “Política da Fé”
Michael Oakeshott diagnostica a modernidade como um período assombrado pela “Política da Fé”, um conceito central em seu pensamento. Em sua obra seminal, “A Política da Fé e a Política do Ceticismo”, ele esclarece que essa “fé” não se refere a uma devoção mística ou religiosa, mas sim a uma confiança excessiva e desproporcional na capacidade humana de redesenhar e moldar o mundo por meio de decretos governamentais ou do planejamento burocrático. Para Oakeshott, essa mentalidade transforma o governo em um instrumento na incessante busca por uma perfeição impossível, elevando a política a uma promessa de cura social ou de salvação para todos os males. Ele argumenta que essa abordagem ignora a natureza orgânica e evolutiva da sociedade, tratando-a como um objeto maleável que pode ser ajustado e aperfeiçoado conforme um modelo ideal concebido por especialistas.
Oakeshott desafia a visão de que a sociedade é um sistema mecânico cujas engrenagens podem ser simplesmente ajustadas por uma inteligência superior. Em vez disso, ele a descreve como um corpo complexo, vivo, cujas partes interagem de maneiras muitas vezes imprevisíveis. Nessa perspectiva, as tentativas de impor planos rígidos e soluções universais frequentemente colidem com a realidade dos costumes, das tradições, das linguagens específicas de cada comunidade e das múltiplas e por vezes contraditórias aspirações humanas. A “Política da Fé”, ao prometer um futuro utópico e a eliminação de todas as imperfeições sociais, alimenta uma ilusão perigosa que, paradoxalmente, pode levar a resultados opostos aos almejados, gerando frustração e, em casos extremos, formas de coerção e autoritarismo em nome de um bem maior abstrato.
O Ceticismo como Prudência Institucional e a Verdadeira Educação
A Virtude dos Limites: O Papel do “Ceticismo” na Política
Em contraponto à “Política da Fé”, Michael Oakeshott propõe a “Política do Ceticismo”, que ele define não como incredulidade ou pessimismo, mas como uma forma refinada de prudência institucional. Este ceticismo é um lembrete constante e muitas vezes incômodo de que o poder, quando exercido com convicção absoluta e sem a devida contenção, é propenso a erros significativos. A inteligência política, quando se apaixona por soluções grandiosas e definitivas, corre o risco de produzir catástrofes, mesmo que motivada pelas mais benevolentes intenções. Oakeshott alerta que essa equação nem sequer contempla a imoralidade pública ou a incompetência presunçosa, que apenas amplificam os riscos. Sua obra serve, portanto, como um poderoso lembrete de que a política não pode existir sem limites – e que esses limites não são meramente freios morais, mas sim “tecnologias de convivência” essenciais para a ordem e a liberdade.
Para Oakeshott, o cético político não é o indivíduo que se recusa a agir ou que mergulha no fatalismo. Pelo contrário, é aquele que desconfia profundamente do “delírio terapêutico” do governo, ou seja, da pretensão de que o Estado pode ou deve curar todos os males sociais através de intervenções abrangentes. Este cético prefere a segurança e a previsibilidade oferecidas por regras bem estabelecidas, procedimentos claros e, acima de tudo, a contenção do poder. Ele compreende que as sociedades são, por sua própria natureza, limitadas, porque são constituídas por seres humanos que possuem limitações inerentes. Essa perspectiva advoga por uma governança mais humilde, que respeite a complexidade e a diversidade da vida social, em vez de tentar impor uma uniformidade artificial e controlada. A prudência oakeshottiana, assim, emerge como um antídoto vital contra os perigos do idealismo político desenfreado e da arrogância tecnocrática.
A Voz da Educação Liberal: Além da Instrumentalização
A desconfiança de Oakeshott em relação ao racionalismo desmedido e à instrumentalização reaparece, sob uma nova luz, em suas reflexões sobre a educação, particularmente em sua obra “A Voz da Educação Liberal”. Aqui, a tentação da “fé” assume um formato educacional, transformando a universidade de um santuário do saber em uma “fábrica de competências”. Ele critica a visão que converte as instituições de ensino superior em “clínicas de redenção social” ou em meros “centros de treinamento” voltados para a satisfação de finalidades externas – sejam elas as demandas da economia, as oscilações do mercado, as exigências do Estado ou as causas ideológicas do momento. Oakeshott via essa instrumentalização como um empobrecimento profundo da experiência educacional.
Contra essa tendência, o filósofo propõe uma imagem que, ele sabia, irritaria os “burocratas do espírito”: a educação liberal como a “iniciação de uma conversa”. Não se trata de um processo de aquisição passiva de informações ou de um simples treinamento para o mercado de trabalho, mas sim de aprender a ouvir e a falar as linguagens do pensamento. É um mergulho no diálogo contínuo da civilização, onde o estudante é convidado a participar ativamente, a questionar, a refletir e a desenvolver sua própria capacidade crítica. A educação, nesse sentido, é um fim em si mesma, uma jornada de autodescoberta e de desenvolvimento intelectual, em vez de um meio para colecionar diplomas como “selos de produtividade”. É a valorização do conhecimento pelo conhecimento, da capacidade de pensar de forma autônoma e de engajar-se de maneira significativa com a vasta herança intelectual da humanidade.
O Legado Persistente de Oakeshott: Uma Conclusão Contextual
As críticas mais comuns à filosofia de Michael Oakeshott são, de certa forma, previsíveis e frequentemente mal interpretadas. Argumenta-se que sua prudência poderia ser confundida com conformismo, que sua “conversa” intelectual soaria elitista, ou que sua recusa à planificação social poderia ser uma maneira elegante de aceitar passivamente o mundo como ele está. No entanto, Oakeshott refutava essas interpretações, considerando-as meros “espantalhos” que não capturavam a essência de seu pensamento. Sua obra não é um convite à inação, mas sim um apelo à reflexão profunda sobre os limites da ação humana e do poder político.
A contribuição duradoura de Oakeshott reside em sua descrição precisa da ansiedade moderna por uma autoridade que nos poupe do risco inerente ao julgamento individual e coletivo. Ele nos alerta que a “política da fé”, com suas promessas de libertação e perfeição social, inevitavelmente nos aprisiona em um ideal salvífico que, em última instância, pode degenerar em tirania. Da mesma forma, a educação instrumental, embora prometa emancipação através da utilidade prática, acaba por resultar em um empobrecimento doutrinal que se torna um obstáculo intransponível à verdadeira inteligência e à capacidade de pensamento crítico. O “racionalismo prudente” de Oakeshott, portanto, oferece uma bússola essencial para navegar os complexos desafios da governança contemporânea e da formação intelectual, advogando por uma abordagem mais humilde, reflexiva e consciente das limitações humanas e sociais, promovendo a liberdade através da contenção e o florescimento intelectual pela via do diálogo genuíno e da busca desinteressada pelo saber.
Fonte: https://www.naoeimprensa.com











