A Bíblia não é um panfleto motivacional, muito menos um manual rápido de autoajuda. É uma coleção de textos milenares escritos em hebraico, aramaico e grego, repletos de contextos históricos, culturais e espirituais profundos. Interpretá-la corretamente exige estudo sério, paciência, reverência e responsabilidade. Mesmo assim, multiplicam-se pessoas que, sem preparo algum, resolvem abrir igrejas ou liderar comunidades como se fosse um simples empreendimento ou um atalho para status e lucro.
A banalização do púlpito
A função pastoral deveria ser exercida com temor e profundo conhecimento das Escrituras. Hoje, porém, muitos que sequer leram a Bíblia inteira se aventuram a ensinar doutrinas, realizar aconselhamentos e até “profetizar” em nome de Deus. O resultado é um desastre espiritual: doutrinas distorcidas, famílias confusas e fiéis traumatizados que acabam, muitas vezes, abandonando a fé.
A má interpretação que vira heresia
Ignorância teológica é terreno fértil para heresias. Um dos exemplos mais grotescos ganhou repercussão nacional: um “pastor” distorceu Oséias 3:1 —
“Disse-me o Senhor: Vai outra vez, ama uma mulher amada de seu amigo, e adúltera, como o Senhor ama os filhos de Israel, apesar de eles olharem para outros deuses…” — Oséias 3:1
A passagem é simbólica: Deus manda que Oséias continue amando sua esposa infiel para ilustrar o amor divino por um povo espiritualmente adúltero. O falso pastor ignorou completamente o contexto e alegou que esse versículo lhe dava autorização para se envolver com esposas de membros da igreja. O absurdo foi tão grande que virou matéria em rede nacional, mostrando como a Bíblia pode ser usada como escudo para práticas imorais quando cai nas mãos de quem não estuda.
Líderes que alimentam conspirações e mentiras
A falta de preparo abre espaço também para teorias da conspiração “gospel”: chips satânicos em vacinas, datas exatas para o fim do mundo, “códigos” secretos em nomes de políticos, pirâmides financeiras disfarçadas de “ofertas de fé” e por aí vai. Em vez de pregarem Cristo, esses pregadores sem base bíblica preferem alimentar medo e desinformação, manipulando fiéis vulneráveis para manter poder e dízimo.
A Bíblia exige estudo, não achismo
Interpretar corretamente as Escrituras envolve analisar o idioma original, o gênero literário, o contexto histórico, o propósito do autor e o diálogo com outras passagens. Ignorar essas camadas gera “doutrinas” que nada têm a ver com o Evangelho. Foi por isso que Pedro alertou que pessoas “ignorantes e instáveis deturpam as cartas de Paulo” (2 Pe 3:16) — problema antigo, mas hoje com microfone e canal no YouTube.
Fé não anula a responsabilidade de estudar
Alguns líderes justificam sua preguiça teológica dizendo: “o Espírito Santo revela tudo”. O mesmo apóstolo Paulo, cheio do Espírito, estudou a fundo as Escrituras judaicas e usou argumentos complexos que desafiam estudiosos até hoje. Se um médico “chamado por Deus” se recusasse a estudar medicina, seria inaceitável; o mesmo vale para quem pretende cuidar de almas.
O efeito sobre os fiéis
Quando a Palavra é distorcida, os danos são profundos: fanatismo, manipulação financeira, traumas espirituais, escândalos que afastam muitos da fé e mancham o nome de Cristo. Jeremias já havia advertido sobre pastores que “destroem e dispersam as ovelhas” (Jr 23:1). Jesus chamou tais líderes de “ladrões e salteadores” (Jo 10:8).
Ser chamado não é o mesmo que ser capacitado
“Deus capacita os escolhidos” — sim, mas Ele também exige disciplina e dedicação. Um pregador sem estudo é como um cirurgião sem formação: pode causar danos irreversíveis. Capacitação divina não elimina o dever humano de aprender.
A responsabilidade do fiel: examinar tudo
Nos últimos tempos surgiriam falsos mestres (Mt 24:11). Paulo disse que haveria quem buscasse “mestres segundo suas próprias cobiças” (2 Tm 4:3). O fiel prudente examina as Escrituras, como faziam os bereanos (At 17:11), questiona, compara, pesquisa e foge de qualquer púlpito que transforma a Bíblia em pretexto para vantagem pessoal.
O verdadeiro pastor se dedica à Palavra
Pastores sérios oram, estudam idiomas bíblicos, consultam bons comentários, dialogam com a história da igreja, reconhecem seus limites e pregam com humildade. Apontam para Cristo, não para si. Valorizam a verdade, não o lucro. Suas igrejas se tornam comunidades saudáveis, onde o ensino sólido produz crescimento espiritual genuíno.
Conclusão: conhecimento protege, ignorância destrói
Abrir uma igreja não deveria ser hobby nem plano de carreira, mas um chamado confirmado pela comunidade e sustentado por caráter e estudo. A Palavra de Deus, mal interpretada, vira arma contra os próprios filhos de Deus. Se você busca uma fé robusta, procure igrejas que prezem por ensino bíblico sério, líderes com formação e temor, e ambientes onde Cristo — não o ego do pregador — seja o centro.
Porque a fé autêntica se fortalece na verdade; já a ignorância fantasiada de unção só produz confusão, escândalo e feridas que levam tempo para sarar.











