Vivemos numa era de discursos extremos. De um lado, defensores fervorosos da fé. Do outro, ateus militantes que não apenas dizem não acreditar em Deus — mas fazem questão de gritar isso aos quatro ventos, frequentemente com um ódio inflamado que soa mais como decepção pessoal do que convicção racional. O que isso revela? Uma questão simples, mas profunda: seria o ateísmo, em muitos casos, apenas uma resposta emocional à dor? Uma vontade de não crer, porque crer seria admitir que Deus existe… e que Ele, de alguma forma, deixou de cumprir com as expectativas de quem o acusa?
A incoerência de acusar quem não existe
É curioso — para dizer o mínimo — ver tantos autodeclarados ateus direcionando suas frustrações da vida a um ser que, segundo eles, não existe. Quando questionados sobre as injustiças do mundo, dizem: “Se Deus existisse, isso não aconteceria.” Quando falam sobre sofrimento, dizem: “Como pode um Deus bom permitir isso?” Mas se Deus não existe, como é possível esperar qualquer tipo de ação, justiça ou compaixão da parte Dele?
Aqui está o ponto: não se trata da ausência de fé. Trata-se da presença de frustração. Decepção. Raiva. E, talvez o mais importante: de uma crença escondida, que tenta desesperadamente ser suprimida.
Porque ninguém sente raiva de um ser mitológico. Ninguém escreve textos inflamados contra o Papai Noel, Zeus ou Thor. Mas contra Deus, sim. Por quê?
A resposta é incômoda: porque, lá no fundo, ainda há uma fagulha de fé sufocada pela mágoa.
A vontade de não acreditar
Frequentemente, não estamos diante de um ateísmo puro — filosófico, lógico, racional. Estamos diante de um ateísmo emocional. Não é que a pessoa “não acredita”. Ela não quer acreditar. Porque acreditar implicaria reconhecer que há um ser superior que não agiu como ela gostaria. Que não impediu a dor, o abandono, o abuso, a tragédia.
Nesse cenário, negar a existência de Deus se torna um escudo. Uma tentativa de autoproteção. Se Deus não existe, então Ele não é culpado. Se Ele não é culpado, então a dor é apenas acaso — e não abandono.
Mas a verdade é que muitos desses “ateus” falam de Deus com mais intensidade do que muitos cristãos mornos. Citam versículos (ainda que fora de contexto), provocam debates religiosos, atacam a fé dos outros com uma raiva quase evangelizadora. Quem está tão empenhado em “desprovar” algo, na verdade, ainda está preso a isso.
A religião não é Deus
Grande parte das pessoas que se declaram ateias hoje em dia não rejeitam Deus — rejeitam a igreja. E com razão, em muitos casos. Foram traídas por líderes espirituais, abusadas emocional ou sexualmente, roubadas em nome da “semeadura financeira”, julgadas por suas dúvidas ou seus pecados, condenadas por não se encaixarem no molde da religião institucional.
Mas aqui está a tragédia: elas confundem homens com Deus.
Deus nunca criou religião. A religião, como conhecemos, é uma construção humana. Jesus não fundou templos de mármore nem ergueu palanques de ouro. Ele sentou-se com pecadores, tocou leprosos, perdoou adúlteras e confrontou justamente os religiosos hipócritas.
A pessoa que sofreu na igreja foi vítima de homens, não de Deus. A dor é real, a revolta é compreensível. Mas jogar a culpa em Deus pelo que homens fizeram em Seu nome é como odiar a luz do sol porque alguém te bateu com uma lanterna.
Bloco Extra: Ateus por feridas da alma
Muitas histórias de “conversão” ao ateísmo começam em lugares escuros: abuso na infância dentro da igreja, pais fanáticos que usavam a Bíblia como chicote, líderes espirituais que exigiam obediência cega enquanto cometiam crimes nas sombras.
Essas pessoas não “estudaram” e se tornaram ateias por lógica. Elas se machucaram. Elas foram traídas. E, por isso, decidiram que Deus não pode ser bom — ou sequer real.
É uma defesa compreensível, mas que precisa ser reconhecida como tal: não é uma resposta racional, é uma reação emocional.
Deus, na Bíblia, nunca prometeu que seus representantes seriam perfeitos. Pelo contrário — advertiu que surgiriam falsos profetas, lobos em pele de cordeiro, mercadores da fé. Jesus foi claro ao dizer: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus”.
Portanto, ao abandonar a fé devido à igreja, muitos estão simplesmente entregando a vitória àqueles que os feriram. Estão rompendo com Deus, quando deveriam romper com a religião doente. Estão jogando fora a essência por causa da embalagem podre.
Conclusão: Talvez você não odeie Deus… talvez só esteja ferido
Este artigo não pretende converter ninguém. Mas quer lançar uma reflexão honesta e necessária: será que você realmente não acredita? Ou será que está muito ferido para conseguir acreditar?
Muitos ateus parecem ter mais assuntos mal resolvidos com Deus do que os próprios fiéis. E, ao contrário do que dizem, continuam falando Dele — com raiva, com dor, com ironia. Mas falam. E onde há tanto discurso, há uma alma ainda em luta.
Se você chegou até aqui, talvez não seja coincidência. Talvez seja Deus — esse mesmo que você diz não crer — tentando te mostrar que Ele nunca foi o problema. Que Ele sempre esteve do seu lado, mesmo quando seus representantes o envergonharam.
A fé não é uma fuga da razão. Mas também não pode ser julgada apenas pelo trauma. Deus não é a igreja. E acreditar Nele não é aceitar os erros dos homens — é, muitas vezes, justamente rejeitá-los.
Referências:
Bíblia Sagrada (Mateus 7:21, Mateus 24:24, 2 Pedro 2:1)
“Religious Trauma Syndrome” – Dra. Marlene Winell, psicóloga clínica
“The Faith of the Unbeliever” – Nicholas Wolterstorff, Yale University
Dados do Pew Research Center sobre razões para abandono da fé











