No cenário do cinema contemporâneo, onde franquias e universos compartilhados dominam, uma intrigante trilogia de horror concluiu-se discretamente, sem alardes oficiais ou rótulos explícitos. Não se tratava de uma sequência tradicional de filmes com títulos numerados, mas sim de um conjunto de obras que, à semelhança da aclamada Trilogia Cornetto de Edgar Wright, conectavam-se por meio de temas, elementos estilísticos e uma visão de mundo coesa. Este ciclo inesperado, composto por “Ready Or Not”, “Abigail” e um suposto “Ready Or Not 2: Here I Come”, mergulhou de forma sagaz e visceral nas profundezas da luta de classes, utilizando o horror como uma lente para expor as tensões socioeconômicas e a hipocrisia das elites. Através de narrativas sangrentas e personagens marcantes, esses filmes oferecem uma análise contundente sobre poder, privilégio e as consequências brutais de um sistema desigual, ressoando com as inquietações de uma sociedade cada vez mais polarizada.
A Gênese de um Gênero Clandestino
Ready Or Not e o Ritual da Elite
O pontapé inicial para esta análise social enraizada no horror veio com o lançamento de “Ready Or Not” (2019). O filme, dirigido por Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, apresenta a história de Grace (Samara Weaving), uma jovem de origem humilde que se casa com Alex Le Domas (Mark O’Brien), herdeiro de uma excêntrica e riquíssima família cujo império foi construído sobre jogos de tabuleiro. A tradição da família dita que todo novo membro deve participar de um jogo à meia-noite do casamento. O que Grace não sabe é que, se o jogo sorteado for “esconde-esconde”, ela se tornará a presa em uma caçada mortal, um ritual macabro necessário para evitar uma maldição que supostamente recairia sobre os Le Domas. A premissa central de “Ready Or Not” é uma sátira mordaz à aristocracia e ao dinheiro velho. A família Le Domas, com sua riqueza incalculável e sua fachada de sofisticação, revela-se um ninho de predadores violentos, dispostos a matar para preservar seu status e fortuna. O filme expõe a decadência moral dos ricos, que veem a vida humana como um mero peão em seus jogos sádicos, e a inocência e vulnerabilidade da classe trabalhadora, representada por Grace, que é jogada em um mundo onde as regras são distorcidas pela opulência e pelo entitlement. A violência gráfica e o humor negro servem como ferramentas afiadas para criticar a desconexão da elite com a realidade, a forma como o privilégio se torna uma armadura e uma justificativa para atrocidades, e a eterna luta pela sobrevivência daqueles que não nasceram em berço de ouro. Mais do que um simples filme de terror, “Ready Or Not” funciona como um espelho grotesco da sociedade, onde os jogos de poder são levados ao extremo, e a única forma de ascender ou sobreviver é desmantelar as estruturas de opressão, custe o que custar.
A Evolução Temática e a Vingança das Classes
Abigail, Ready Or Not 2 e a Escalada do Conflito
A progressão temática desta trilogia secreta encontra um terreno fértil em “Abigail” (2024), também dirigido pela dupla Bettinelli-Olpin e Gillett, que eleva o debate sobre as lutas de classes a um novo patamar de horror e subversão. Neste filme, um grupo de criminosos de origens diversas – cada um com suas próprias motivações financeiras e histórias de vida que refletem as pressões socioeconômicas – é contratado para sequestrar Abigail, a filha de 12 anos de um homem extremamente rico. A premissa inicial já ecoa a dinâmica de classe: o desespero e a ambição de quem tem pouco contra a vasta riqueza da vítima. No entanto, a narrativa vira de cabeça para baixo quando se revela que Abigail não é uma criança indefesa, mas sim uma vampira milenar com sede de sangue, e seu pai é uma figura ainda mais monstruosa e poderosa. “Abigail” inverte as expectativas, mostrando que os predadores podem estar onde menos se espera. Os criminosos, que representam a busca por ascensão ou sobrevivência através de meios ilícitos, tornam-se as presas de uma força sobrenatural que é, em si, um produto da imortalidade e do poder acumulado ao longo dos séculos. A figura do vampiro, historicamente associada à aristocracia e ao consumo parasitário, aqui se torna a metáfora perfeita para a elite que suga a vitalidade das classes mais baixas, não apenas economicamente, mas literalmente. A conexão com “Ready Or Not” é evidente na forma como a riqueza e o status são intrinsicamente ligados a uma forma de monstruosidade. Enquanto a família Le Domas era metaforicamente vampírica, Abigail é literalmente. O desfecho desta trilogia temática, sugerido pelo título “Ready Or Not 2: Here I Come” (um filme que, dentro do contexto desta análise, conclui o arco temático), promete intensificar ainda mais o confronto. Se o primeiro filme mostra a presa lutando contra seus caçadores e o segundo inverte os papéis com a elite literalmente se revelando um monstro, a sequência “Here I Come” implica um retorno, uma retribuição ou uma expansão da caçada. Poderia sugerir que a protagonista Grace, ou talvez outras vítimas das elites, agora estão armadas com o conhecimento e a raiva necessários para iniciar sua própria caçada. Este título evoca a ideia de que a “caça” não terminou, mas talvez tenha mudado de direção, com os oprimidos finalmente se levantando para confrontar seus opressores, transformando a luta de classes em uma guerra aberta e sangrenta. A trilogia, assim, culmina em uma potencial promessa de vingança e justiça, onde o horror não é apenas o que os ricos fazem aos pobres, mas o que pode acontecer quando os pobres decidem que é hora de revidar. O ciclo se completa com a ideia de que a monstruosidade não reside apenas em rituais antigos, mas na própria essência do poder e da acumulação desenfreada de riqueza, e que a resposta a essa opressão pode vir de formas igualmente brutais e inesperadas, ressoando com o desespero e a fúria das classes subalternas em um mundo cada vez mais polarizado.
A Luta de Classes como Coração do Horror Cinematográfico
Ainda que não oficialmente designada como tal, a trilogia composta por “Ready Or Not”, “Abigail” e o sugerido “Ready Or Not 2: Here I Come” solidifica-se como um poderoso comentário social, utilizando o gênero do horror como uma ferramenta afiada para dissecar as complexidades e brutalidades da luta de classes. Esses filmes demonstram a genialidade em tecer narrativas que são ao mesmo tempo aterrorizantes e profundamente reflexivas, transformando o entretenimento em uma plataforma para a crítica socioeconômica. O horror, com sua capacidade intrínseca de expor medos e tabus, revela-se o veículo ideal para desmascarar a crueldade inerente a sistemas de poder desiguais e a hipocrisia das elites. Cada filme, à sua maneira, subverte as expectativas e entrega uma visão visceral de como a riqueza e o privilégio podem corromper, desumanizar e transformar seres humanos em monstros, sejam eles figurativos ou literais. A trilogia questiona as bases da sociedade capitalista, onde a acumulação de riqueza muitas vezes se constrói sobre a exploração e a violência contra os menos afortunados. Ao final, essa série de filmes não apenas entretém com seu gore e suspense, mas também provoca uma reflexão duradoura sobre quem realmente detém o poder, quem paga o preço e quais são os limites da resistência em um mundo onde o jogo está armado desde o início. É uma exploração pertinente e oportuna, que ecoa as tensões crescentes do mundo real e a eterna busca por equidade em meio à disparidade, solidificando o horror como um dos gêneros mais eficazes para o comentário social e a subversão de paradigmas.
Fonte: https://screenrant.com















