A grelina, amplamente reconhecida como o “hormônio da fome”, desempenha um papel crucial na regulação do apetite e do metabolismo em uma vasta gama de espécies vertebradas, incluindo os humanos. Sua presença sinaliza ao cérebro a necessidade de ingestão de alimentos, ativando mecanismos fisiológicos complexos. Contudo, uma descoberta intrigante no reino animal tem desafiado a compreensão científica: algumas espécies de serpentes parecem carecer totalmente da grelina. Esta ausência levanta uma questão fascinante para os pesquisadores: como esses répteis, conhecidos por sua notável capacidade de suportar longos períodos sem alimento, gerenciam sua fisiologia e energia sem esse hormônio tão fundamental? A investigação deste paradoxo promete desvendar segredos profundos sobre a adaptação metabólica e a sobrevivência em condições extremas, com potenciais implicações que vão além da herpetologia.
A Grelina e o Mecanismo da Fome em Vertebrados
O Papel Essencial do “Hormônio da Fome”
A grelina é um hormônio peptídico de 28 aminoácidos, primariamente produzido e secretado pelas células endócrinas do estômago, embora também seja encontrada em quantidades menores no intestino, pâncreas e cérebro. Sua função mais conhecida é atuar como um orexígeno, ou seja, um estimulante potente do apetite. Quando o estômago está vazio, os níveis de grelina aumentam, enviando sinais ao hipotálamo, a região do cérebro responsável pelo controle da fome e da saciedade. Este sinal não apenas induz a busca por alimentos, mas também influencia o metabolismo energético, promovendo o armazenamento de gordura e a liberação do hormônio do crescimento.
Em mamíferos, a grelina é um componente vital do eixo intestino-cérebro, coordenando a ingestão de energia com o estado nutricional do organismo. Sua descoberta na década de 1990 revolucionou a compreensão da regulação do peso corporal e do metabolismo. A conservação de sua estrutura e função em diversas classes de vertebrados – de peixes a aves e mamíferos – sublinha sua importância evolutiva como um sistema de alarme para a privação de alimentos. A ausência funcional ou completa deste hormônio, como se observa em certas linhagens de serpentes, desafia diretamente esta perspectiva amplamente aceita, sugerindo a existência de mecanismos adaptativos únicos para gerenciar a energia e o apetite.
A Fisiologia Única das Serpentes e a Ausência Inesperada
Adaptações Metabólicas para a Sobrevivência Prolongada
As serpentes são mestres da adaptação metabólica, uma característica intrínseca à sua natureza ectotérmica. Por serem animais de sangue frio, sua temperatura corporal e, consequentemente, sua taxa metabólica, são influenciadas diretamente pelo ambiente. Isso as dota de uma vantagem energética significativa em comparação com mamíferos e aves, pois gastam muito menos energia para manter suas funções vitais. Além disso, a maioria das serpentes exibe um padrão de alimentação oportunista, consumindo grandes presas de forma intermitente e, em seguida, passando por longos períodos de digestão e jejum, que podem se estender por semanas, meses ou até mais de um ano em algumas espécies.
Durante esses prolongados períodos de jejum, as serpentes demonstram uma capacidade extraordinária de diminuir drasticamente seu metabolismo, desacelerando funções orgânicas, reduzindo a massa muscular e otimizando o uso de suas reservas de gordura, sem experimentar os efeitos deletérios que seriam catastróficos para outros animais. A descoberta de que algumas serpentes não possuem o gene para a grelina, ou que seus receptores de grelina são não-funcionais, adiciona uma camada de complexidade a essa notável fisiologia. Se a grelina é o principal sinal de “fome” em outros animais, como as serpentes sem esse hormônio conseguem discernir quando é hora de caçar, controlar seus níveis de energia e evitar a autofagia excessiva sem um sinal tão fundamental? Este enigma sugere que essas serpentes desenvolveram vias alternativas, talvez mais ancestrais ou evolutivamente especializadas, para regular a ingestão de alimentos e a homeostase energética, o que torna sua biologia um campo fértil para novas investigações.
Implicações Científicas e Novas Fronteiras de Pesquisa
A ausência da grelina em certas serpentes representa um desafio significativo para o paradigma atual da regulação metabólica e abre novas e empolgantes fronteiras para a pesquisa. Essa observação não apenas questiona a universalidade do papel da grelina em todos os vertebrados, mas também força os cientistas a considerar a existência de mecanismos alternativos, e talvez mais primitivos, que controlam o apetite e a utilização de energia. Compreender como essas serpentes mantêm a homeostase energética e sinalizam a fome sem a grelina pode revelar vias bioquímicas e neurais ainda desconhecidas ou subestimadas em outros animais.
As implicações desta pesquisa estendem-se muito além da biologia reptiliana. A capacidade das serpentes de suportar jejuns extremos sem perda muscular significativa ou danos aos órgãos é um “santo graal” para a medicina humana. Estudos sobre essa fisiologia poderiam inspirar novas estratégias para combater a perda de massa muscular (caquexia) em pacientes com doenças crônicas, desenvolver abordagens inovadoras para o controle da obesidade, ou mesmo auxiliar na otimização de dietas para astronautas em missões espaciais prolongadas. A identificação de peptídeos ou neurotransmissores que substituem a função da grelina nessas serpentes poderia levar à descoberta de novos alvos terapêuticos. Em última análise, a investigação da grelina em serpentes não é apenas uma curiosidade biológica, mas uma porta de entrada para desvendar os segredos mais profundos da adaptação, sobrevivência e os limites da fisiologia metabólica em todo o reino animal, com o potencial de impactar diretamente a saúde humana.
Fonte: https://www.sciencenews.org











