Sionologia: as Origens Inesperadas do Negacionismo e do Antissemitismo o cenário

A Contrária Gênese do Negacionismo do Holocausto

A crença popular e a cobertura midiática frequentemente ligam a negação do Holocausto de forma indissociável à extrema-direita, exemplificada por figuras como o editor brasileiro Siegfried Ellwanger, conhecido por publicar material nazista e negacionista. No entanto, o berço do que hoje se conhece como negacionismo histórico não se encontra exclusivamente nesse espectro político, mas sim em correntes ideológicas distintas e, por vezes, surpreendentes. A história do negacionismo é mais matizada, revelando uma origem que desafia as categorizações simplistas e exige uma investigação mais aprofundada para compreender suas complexas nuances.

Desmistificando a Extrema-Direita como Única Fonte

Embora a associação entre neonazismo, extrema-direita e antissemitismo seja automática e, em muitos casos, justificada – como no caso de Ellwanger, que reuniu grupos jovens para ações antissemitas na cidade de Porto Alegre –, a narrativa sobre as origens do negacionismo do Holocausto é mais intrincada. O movimento que se autodenomina “Revisionismo Histórico”, apesar de ser amplamente desacreditado por historiadores sérios por sua flagrante falta de fundamentação e caráter conspiratório, emergiu em um contexto ideológico diferente. Seus defensores alegam que o extermínio de milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial foi uma invenção, parte de uma suposta conspiração judaica para dominação global, apresentando-se como “revisores” de fatos históricos, mas na realidade distorcendo evidências e testemunhos e ignorando um vasto corpo de pesquisa e registros. Trata-se de uma amálgama de inverdades sem qualquer sustentação histórica.

É crucial entender que, por mais fraudulento e malevolente que seja, o negacionismo possui uma trajetória histórica própria, que merece ser investigada para desvendar a complexidade da judeofobia. A primeira publicação de material que negava a existência de campos de extermínio nazistas surgiu na França, na década de 1950. Curiosamente, os pioneiros dessa onda não foram colaboradores do regime de Vichy, que se alinhou aos nazistas durante a guerra, mas sim figuras oriundas da esquerda radical, desafiando a percepção comum de que tal discurso seria exclusivo da direita.

Os Primeiros Propagadores na França Pós-Guerra

Os primeiros expoentes do negacionismo na França pós-guerra foram o trotskista Pierre Guillaume, militante do grupo “Socialismo ou Barbárie”, e Serge Thion, proprietário da pequena editora “La Vieille Taupe”. A figura central em suas publicações era Paul Rassinier, um ex-membro da Resistência Francesa e militante comunista, que utilizava seu passado como salvo-conduto para propagar suas teses. Rassinier alegava que, durante seu aprisionamento pelos nazistas, nunca testemunhou maus-tratos a judeus, concluindo, erroneamente, que todos os testemunhos sobre o extermínio em massa nos campos eram falsos. Ele desconsiderava os relatos dos soviéticos, os primeiros a documentar as atrocidades em locais como Auschwitz, por considerá-los “stalinistas”, alinhado à sua perspectiva trotskista e a uma profunda desconfiança nas narrativas oficiais.

Para esses trotskistas franceses, o sionismo não era visto como um movimento de libertação nacional judaica, mas sim como a concretização dos planos delineados nos “Protocolos dos Sábios de Sião”, uma notória fraude fabricada pela polícia secreta czarista no início do século XX para fomentar o ódio antissemita e que descrevia uma suposta conspiração judaica para dominar o mundo. Essa vinculação inicial entre correntes da esquerda radical e as teorias conspiratórias anti-judaicas estabeleceu um precedente perturbador para a evolução do antissemitismo velado, marcando a história do negacionismo com uma complexidade ideológica que persiste até hoje.

Sionologia Soviética: A Estruturação do Antissemitismo de Estado

Enquanto o negacionismo ganhava terreno na França com apoio da esquerda, a centenas de quilômetros a leste, em Moscou, gestava-se uma nova forma de antissemitismo sistemático e institucionalizado: a “Sionologia”. Esta pseudociência sociopolítica, moldada sob a égide marxista-leninista, foi adotada como política acadêmica oficial na União Soviética, transformando-se em um poderoso instrumento de propaganda anti-Israel e, por extensão, anti-judaica. A Sionologia não se limitava a negar o Holocausto diretamente, mas deslegitimava a própria existência e o propósito do Estado de Israel e do sionismo, atribuindo-lhes intenções malévolas e conspiratórias dignas de uma ideologia reacionária e expansionista.

A Criação de Uma “Ciência” Antissionista

A Sionologia representou um esforço coordenado para desqualificar o sionismo como uma ideologia reacionária, chauvinista e expansionista. Em 1963, Trofim K. Kichko, com apoio da Academia de Ciências da Ucrânia, publicou “O Judaísmo sem Maquiagem”, obra que, de forma insidiosa, partia de um trecho dos “Protocolos dos Sábios de Sião” para alegar que o “expansionismo e a crueldade israelense” eram predeterminados pelo Talmude. Mais tarde, em 1969, Yuri Ivanov lançou “Cuidado! Sionismo!”, um panfleto tosco que definia o sionismo como “uma ideologia de organizações conectadas para a prática política da burguesia judaica e fundida com as esferas monopolistas nos EUA”, desconsiderando sua natureza como movimento de autodeterminação nacional.

Essas publicações sionológicas tornaram-se leitura obrigatória na formação de quadros políticos e militares soviéticos e dos países sob sua influência. Disseminados pelos graduados da Universidade dos Povos Patrice Lumumba, esses livros moldaram gerações de militantes de esquerda, que internalizaram e reproduziram a visão soviética. A “Grande Enciclopédia Soviética”, em sua terceira edição, resumia essa doutrina ao descrever o sionismo como um “postulado reacionário, chauvinista, racista e anticomunista”, uma organização detentora de “grandes fundos financeiros monopolistas que influenciam a opinião pública ocidental capitalista e serve como frente avançada do colonialismo”, solidificando uma narrativa oficial de ódio.

Disseminação e Influência Global

O rompimento entre a União Soviética e o movimento sionista, majoritariamente socialista em suas origens, ocorreu antes mesmo da independência de Israel em 1948. Josef Stálin tentou frustrar o sionismo com a criação de Birobidjan, uma república autônoma judaica, visando manter os judeus sob controle de Moscou e desencorajar qualquer aspiração de migração para a Terra de Israel. O líder soviético também instrumentalizou o sionismo em seu último grande expurgo, a “Conspiração dos Médicos”, que visava uma série de médicos judeus acusados falsamente de conspirar para assassinar líderes soviéticos. Mesmo após sua morte, a URSS manteve uma postura abertamente anti-Israel. A Guerra dos Seis Dias em 1967, na qual Israel derrotou uma coalizão de países árabes apoiados pela União Soviética, intensificou essa retórica, fornecendo um terreno fértil para a disseminação da Sionologia em escala global.

A Sionologia e o surgimento de grupos terroristas árabes se retroalimentaram de forma sinérgica. Yasser Arafat, por exemplo, recebeu treinamento dos serviços secretos do leste europeu, indicando a influência soviética na formação de lideranças anti-Israel. Mahmoud Abbas, atual presidente da Autoridade Palestina, é formado em história pela Escola Oriental de Moscou e autor de um livro negacionista, publicado em árabe sob patrocínio soviético na década de 1970, o que ilustra a profundidade da penetração dessas ideias. Uma tática recorrente dos sionologistas era a utilização de autores judeus para conferir uma falsa legitimidade às suas teses. Desde os anos 1960, membros de partidos comunistas de origem judaica eram recrutados para emprestar seus nomes às publicações. Essa prática perdurou, resultando no surgimento de intelectuais como Noam Chomsky e Norman Finkelstein, que, sem serem negacionistas explícitos do Holocausto, alinham-se à demonização do sionismo e da identidade judaica, sendo frequentemente citados por negacionistas como fontes para suas ideias, ainda que suas próprias posições possam divergir em detalhes.

O Legado Perene e a Convergência de Narrativas

O encontro entre negacionistas, comunistas e, posteriormente, grupos terroristas, que deu forma à Sionologia, criou uma narrativa potente e duradoura, capaz de transcender barreiras ideológicas. Surpreendentemente, essa estrutura discursiva foi absorvida até mesmo por militantes neonazistas, revelando uma convergência ideológica perturbadora onde os pontos de contato superam as diferenças aparentes. Ao comparar os discursos da extrema-direita e de uma parcela significativa da esquerda contemporânea, as diferenças em relação ao sionismo e a Israel tornam-se tênues. Negacionismo e Sionologia são articulados tanto por figuras da esquerda, como José Saramago e os já mencionados Chomsky e Finkelstein, quanto por expoentes da extrema-direita, como Lyndon LaRouche, cujas raízes trotskistas são um lembrete dessa fluidez ideológica e da capacidade de adaptação do antissemitismo.

A colaboração, muitas vezes implícita, entre ultra-direitistas e ultra-esquerdistas no fomento ao antissemitismo é uma característica marcante desse fenômeno. Comunistas como Rassinier usavam sua ideologia para se desassociar das acusações de nazismo, enquanto negacionistas de direita se valiam da participação de judeus de esquerda como uma espécie de “salvo-conduto” contra acusações de antissemitismo, criando uma dinâmica de legitimidade fraudulenta. No Brasil, por exemplo, sites ligados a seguidores de Siegfried Ellwanger frequentemente exibem links tanto para conteúdo que exalta a violência contra judeus quanto para textos acadêmicos de esquerda, onde se critica, por exemplo, o uso “capitalista” das indenizações de guerra, criando uma “mixórdia” de justificativas para o negacionismo e a expropriação de bens judaicos, revelando a teia complexa de alianças ideológicas.

O eco mais proeminente da Sionologia na atualidade pode ser observado nos discursos de líderes como o ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, que declarou em 2005 que o Holocausto seria um mito. Ahmadinejad sustentava que essa “lenda” serviria para justificar uma suposta opressão ocidental contra países islâmicos, desafiando a comunidade internacional ao fomentar o terrorismo e buscar armamento nuclear. Fora do mundo islâmico, o apoio a essas reivindicações, historicamente, veio de parcelas da esquerda, cada vez mais cativadas pelo discurso sionologista, evidenciando uma continuidade preocupante nas narrativas.

A persistência da retórica sionologista e negacionista, nascida nos anos 1960 e laboriosamente disseminada por intelectuais de esquerda treinados pela propaganda soviética, transcendeu a própria existência da URSS. Ela fincou raízes profundas na academia e na mídia, constituindo, hoje, a essência de discursos não apenas da esquerda, mas também de franjas direitistas que se multiplicam sobre uma plataforma de antissemitismo, como os “groyppers” de Nick Fuentes ou a “Quarta Teoria Política” de Aleksandr Dugin. O caso de um sociólogo brasileiro que recentemente fez declarações antissemitas, ecoando chavões conspiratórios amplamente difundidos na internet, como acusações de que Jeffrey Epstein seria um agente do Mossad (embora evidências apontem para ligações com serviços de inteligência russos), ou a representação de Israel e do sionismo como meras entidades assassinas de palestinos, é um exemplo claro da sobrevivência e da ressonância dessa retórica.

A surpresa com tais declarações muitas vezes decorre da falta de familiaridade com a origem e a trajetória histórica dessas narrativas. Compreender os mecanismos retóricos do “antissemitismo de esquerda”, que na prática se tornou indistinguível de outras formas de antissemitismo, é fundamental para confrontá-lo com argumentos históricos consistentes. A Sionologia soviética, portanto, não apenas explica a retórica de certas figuras, mas também a própria existência de um segmento intelectual que a perpetua, revelando a urgência de desmascarar suas raízes profundas para combater a judeofobia em todas as suas manifestações, com base na verdade histórica e na análise crítica das ideologias.

Fonte: https://www.naoeimprensa.com

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