O mundo da música lamenta a perda de Willie Colón, o trombonista, arranjador, líder de banda e produtor que se estabeleceu como uma das figuras mais imponentes e arquitetos fundamentais do gênero salsa. Colón, que deixou um legado inquestionável no cenário musical latino, faleceu no último sábado, aos 75 anos. Sua partida marca o fim de uma era para muitos, mas o eco de sua influência ressoa em cada compasso da salsa moderna. Conhecido por sua abordagem inovadora e por infundir na música latina uma voz para as crônicas urbanas e as questões sociais, Colón transcendeu as barreiras do entretenimento para se tornar um verdadeiro embaixador cultural, levando a salsa a palcos e corações onde jamais havia chegado. Sua genialidade musical e sua capacidade de conectar-se com o público definiram uma carreira brilhante e duradoura.
A Trajetória de um Visionário Musical
Das Ruas do Bronx ao Palco Global
Nascido William Anthony Colón Román em Nova York, filho de pais porto-riquenhos, Willie Colón emergiu de uma infância desafiadora no South Bronx para se tornar não apenas um músico virtuoso, mas um verdadeiro visionário. Sua jornada musical começou cedo, aos 11 anos, quando sua avó lhe presenteou com um trompete. Embora não tenha frequentado conservatórios, sua paixão e talento eram inegáveis. Aprendeu a ler música com a ajuda de um mentor trompetista e rapidamente formou sua primeira banda, tocando em eventos locais e passando o chapéu para arrecadar fundos. Essa base de autoaprendizagem e a vivência em um bairro onde a interação entre a comunidade e a polícia era constante moldaram sua perspectiva artística.
Aos impressionantes 15 anos, Colón já liderava sua própria banda e chamava a atenção no circuito adolescente de Nova York. Seu talento foi notado pelos fundadores da lendária Fania Records, Johnny Pacheco e Jerry Masucci, que rapidamente o contrataram. Colón compreendeu intuitivamente como fundir a rica herança musical de seus pais porto-riquenhos com a vibrante cena de jazz e funk de Nova York. Essa fusão deu origem a um som distinto que se tornaria a essência da salsa dos anos 70, impulsionando a música latina para o mainstream. Ele era uma verdadeira “ameaça quádrupla”: um compositor prolífico, um arranjador inovador, um produtor astuto e um trombonista que tocava como nenhum outro. Embora modestamente admitisse não ser um cantor brilhante, sua genialidade residia em sua capacidade de criar um universo musical completo.
O Legado Imortal e as Colaborações Históricas
Inovações e Impacto Social na Salsa
A discografia de Willie Colón é um testemunho de sua prolífica criatividade e de seu impacto transformador na música latina. Ele foi o responsável por uma lista extensa de sucessos que definiram o gênero. Colaborações icônicas marcaram sua carreira, começando com o lendário vocalista Héctor Lavoe, com quem gravou clássicos atemporais como “Ché Ché Colé” e “Aguanile”. A parceria entre Colón e Lavoe é frequentemente citada como uma das mais frutíferas da história da salsa, unindo a visão musical de Colón à voz inesquecível de Lavoe.
Outra colaboração memorável foi o álbum “Celia & Willie”, ao lado da rainha da salsa, Celia Cruz, que solidificou ainda mais seu status como um artista de renome. No entanto, foi com Rubén Blades que Colón transcendeu as fronteiras da música para mergulhar em temas sociais e políticos. O álbum “Metiendo Mano” de 1977, com sua capa icônica mostrando Colón como um treinador de boxe erguendo a mão de Blades, introduziu o mundo à voz poderosa do artista panamenho. A faixa de abertura, “Pablo Pueblo”, sinalizou o nascimento de uma salsa com consciência social, cujas mensagens iam muito além da mera dança.
A culminância dessa parceria foi o álbum “Siembra”, lançado em 1978, que ainda detém o título de álbum de salsa mais vendido de todos os tempos. “Siembra” não só apresentou o mega-hit “Pedro Navaja”, mas também redefiniu o potencial narrativo e político da salsa. As capas de seus álbuns, muitas vezes retratando imagens de “durões” ou cenas urbanas, eram uma forma de Colón simbolizar a realidade de sua origem. Ele acreditava que essa autenticidade tornava sua música relevante, representando o cotidiano e as complexidades de sua comunidade. Em uma ocasião, ele compartilhou que a vida difícil de sua vizinhança e as experiências de amigos e familiares com o sistema legal eram representadas em sua arte, permitindo-lhe ser um “gangster durão” metaforicamente, sem a necessidade de vivenciar essa realidade literalmente.
A vida vibrante de Colón, sempre ancorada em sua amada Nova York, incluiu incursões, por vezes polêmicas, na política, na arte e no cinema. Mas, para ele, tudo derivava de suas origens e da música. Sua influência perdurou muito além dos anos da Fania, culminando em mais de 40 álbuns de estúdio ao longo de sua vida. Sua música continuou a inspirar novas gerações, como evidenciado pelo aclamado álbum de Rauw Alejandro, “Cosa Nuestra”, de 2024, que se inspira diretamente no conceito e título do álbum homônimo de Colón de 1970.
Um Ícone Além das Gerações
Willie Colón foi, até o fim, um intérprete prolífico, realizando turnês e apresentações até o momento de seu falecimento. Sua dedicação inabalável à música era a força motriz por trás de sua longa e ilustre carreira. Para ele, “só importava a música”, uma filosofia que o guiou através de décadas de inovação e sucesso. Sua capacidade de expandir a salsa, politizá-la e vesti-la com as crônicas da vida urbana transformou-o em uma figura seminal cuja arte ressoou com milhões.
O reconhecimento de seu monumental legado não se limitou ao público e à crítica. Colón foi agraciado com inúmeras honrarias ao longo de sua vida. Em 2000, foi introduzido no International Latin Music Hall of Fame, um testemunho de sua estatura entre os grandes nomes da música latina. Em 2004, a Latin Recording Academy concedeu-lhe um prêmio pelo conjunto da obra, celebrando sua contribuição duradoura e revolucionária. Mais recentemente, em 2019, ele foi homenageado com sua indução no Latin Songwriters Hall of Fame, reconhecendo sua genialidade como compositor e letrista.
A partida de Willie Colón deixa um vazio imenso no universo da salsa, mas seu espírito e sua música continuarão a inspirar e a mover corações e corpos por gerações. Ele não foi apenas um músico, mas um contador de histórias, um ativista cultural e um visionário que deu voz a uma comunidade, transformando um gênero musical em um espelho da alma latina urbana. Seu legado como “o gigante da salsa” é inegável, perpetuando sua memória através da vibrante melodia e do ritmo contagiante que ele tão brilhantemente ajudou a criar e difundir pelo mundo.
Fonte: https://www.billboard.com











