O Pioneirismo da The Orchard e a Era Digital
A Gênese de um Império Digital na Distribuição Musical
A The Orchard emergiu em 1997, um período em que a música física reinava soberana e a distribuição digital era, na melhor das hipóteses, um conceito nebuloso, gerando debates teóricos sobre como seu modelo econômico se solidificaria. Em meio a essa incerteza, a empresa, sob a liderança visionária de Richard Gottehrer e Scott Cohen, não apenas sobreviveu, mas prosperou, assegurando um papel crucial como distribuidora exclusiva para artistas independentes e selos junto à Valley Media. Esta parceria estratégica abriu portas para o fornecimento de música a pioneiros do varejo online como CDNow e Music Boulevard, à medida que a era digital começava a despontar.
O discernimento de Gottehrer e Cohen se manifestou na decisão de incluir direitos de distribuição digital em todos os contratos com artistas e gravadoras, mesmo quando o foco principal da The Orchard ainda era a distribuição de CDs. Essa cláusula, então aparentemente secundária, revelou-se um golpe de mestre, posicionando a empresa à frente da curva tecnológica e solidificando sua base para o futuro digital da música. A capacidade de antecipar e se adaptar a essas mudanças incipientes foi fundamental para a evolução da empresa, transformando-a em uma potência global.
Atualmente, a The Orchard ostenta o título de maior distribuidora de música independente do mundo. Embora a empresa, parte do Sony Music Group, não divulgue publicamente seus números de faturamento, estimativas do setor indicam que suas receitas anuais se aproximam de cifras bilionárias. Sua participação no mercado estadunidense tem se mantido em torno de uma parcela significativa nos primeiros meses do ano, refletindo seu domínio e influência no cenário da distribuição fonográfica global. Para Gottehrer, entre suas muitas realizações na indústria, co-fundar a The Orchard é, sem dúvida, o feito que lhe traz maior orgulho.
A Trajetória Antes da The Orchard: Compositor, Produtor e Cofundador de Gravadoras
De Hits Pop ao Punk Rock: Uma Carreira Multifacetada na Indústria Fonográfica
A história de Richard Gottehrer na música precede em muito a fundação da The Orchard, marcando-o como um compositor de sucessos, produtor influente e co-fundador de selos lendários. Um dos capítulos iniciais de sua carreira envolveu o trio de composição e produção FGG (formado por Bob Feldman, Jerry Goldstein e Gottehrer). A separação amigável do trio, com Goldstein se mudando para Los Angeles e Feldman explorando novos caminhos, manteve a parceria na editora Grand Canyon Music, mas abriu novas oportunidades para Gottehrer.
Foi durante o período FGG que produziram “Hang On Sloopy” para The McCoys, um sucesso que impulsionou a necessidade de promoção adicional. Nessa fase, Gottehrer conheceu Seymour Stein, um jovem promotor com experiência em tabelas musicais e na King Records. Essa amizade floresceu, culminando na formação da Sire Productions. Inicialmente focada na produção de R&B, a empreitada evoluiu para o selo Sire Records, que encontrou seu distribuidor na London Records. Os primeiros lançamentos incluíram artistas como Phyllis Newman, mas o verdadeiro divisor de águas veio com a crescente importância do rádio FM e a necessidade de álbuns, em contraste com a prática anterior de focar apenas em singles.
Gottehrer e Stein exploraram o mercado europeu, licenciando álbuns de artistas britânicos que não conseguiam distribuição nos EUA. Este movimento estratégico trouxe ao público americano bandas como Climax Blues Band e Renaissance, ambas produzidas por Gottehrer. O grande sucesso internacional, “Hocus Pocus” do Focus, um grupo holandês, marcou um dos primeiros grandes êxitos da Sire. Além disso, a aquisição de uma participação na Blue Horizon, selo fundamental para o blues britânico com nomes como Fleetwood Mac e Chicken Shack, solidificou a reputação da Sire como uma incubadora de talentos e um farol para a música de qualidade. Gottehrer e Stein estavam no auge, desenvolvendo um catálogo impressionante.
Após sua saída da Sire, Richard Gottehrer mergulhou na gestão de artistas, destacando-se o trabalho com Robert Gordon, um talento rockabilly cuja voz e parcerias com o lendário Link Wray prometiam grande sucesso, especialmente na Europa. Paralelamente, Gottehrer deixou sua marca como produtor em álbuns icônicos. Ele produziu o segundo álbum do Blondie, que, embora lançado por uma gravadora diferente após a aquisição do contrato, gerou o primeiro hit global da banda, “Denis”. Para Gottehrer, no entanto, a verdadeira obra-prima do Blondie era “In The Sun”, uma canção que, em sua opinião, merecia reconhecimento muito maior.
Em um período de intensa atividade criativa, Gottehrer se uniu ao produtor e gerente do New York Dolls, Marty Thau, para fundar a Instant Records, uma produtora que assinou o Blondie. Foi Thau quem o incentivou a explorar a efervescente cena do CBGBs, onde Gottehrer vislumbrou a possibilidade de criar um álbum de compilação com artistas daquele movimento. Embora a ideia não tenha se concretizado plenamente, Gottehrer seguiu produzindo, resultando em mais uma obra-prima: “Blank Generation” de Richard Hell & the Voidoids. Essa faixa, gravada e regravada com meticulosidade até atingir a sonoridade desejada, exemplifica a dedicação de Gottehrer à excelência artística e sua habilidade em moldar o som que definiria uma geração.
As Raízes da Composição e o Valor Duradouro da Música
A incursão de Richard Gottehrer na composição musical começou com suas raízes como pianista clássico, que, aos 13 anos, foi cativado pelas ondas sonoras de Alan Freed, mergulhando no blues, R&B e no rockabilly vibrante de Jerry Lee Lewis. Sua própria canção, “I’m On Fire”, escrita na adolescência, foi o primeiro passo. O acaso o levou a conhecer Bob Feldman e Jerry Goldstein em uma sala de espera em Nova York. Esse encontro fortuito deu origem ao trio FGG, marcando o início de uma prolífica parceria de composição. Sentados ao piano, eles transformaram ideias em melodias e letras, com Feldman frequentemente assumindo a liderança nas letras e Gottehrer na estrutura musical.
O trio FGG rapidamente começou a emplacar pequenos sucessos, como “Tossin’ & Turnin’ Again” para Bobby Lewis e “What Time Is It?” para The Jive Five. Em 1962, a ascensão de compositores era vital, pois a maioria dos artistas ainda não escrevia suas próprias canções. Descobertos por Wes Farrell, eles se juntaram à Roosevelt Music, recebendo um salário semanal e um espaço com piano para criar. Lá, produziram sucessos para Freddy Cannon (“What’s Going to Happen When Summer is Done”, “Broadway”), Dion (“Swingin’ Street”, “Gonna Make It Alone”) e Jerry Butler (“Giving Up On Love”).
O grande marco da FGG veio com “My Boyfriend’s Back”, um sucesso estrondoso gravado por The Angels, escrito na April Blackwood Music (que se tornaria Sony Music Publishing). Em uma convenção, a oportunidade de apresentar “I’m On Fire” a Jerry Lee Lewis resultou em uma gravação do ícone do rockabilly. Embora um sucesso moderado nos EUA, a canção tornou-se um hit significativo na Inglaterra e mais tarde foi destaque no filme biográfico “Great Balls of Fire”, solidificando a obra de Gottehrer em um legado duradouro. A versatilidade do trio era notável, adaptando-se a diferentes artistas e gêneros.
A “invasão britânica” no cenário musical impulsionou Gottehrer e seus parceiros a se reinventarem como The Strangeloves. Adotando um sotaque britânico falso para sua interpretação de “Love, Love”, eles capitalizaram a febre cultural e, por meio de uma astuta estratégia de marketing, foram apresentados como uma banda australiana na Virgínia Beach, gerando histeria entre os fãs. Com essa persona, compuseram “I Want Candy” com Bert Berns, um sucesso que se tornou um hino do rock. Foi também durante essa fase que, ao ouvir The McCoys cantando “Hang On Sloopy” como banda de apoio em Ohio, Gottehrer e seus colegas perceberam o potencial da canção e a produziram, transformando-a em um recorde número 1.
Hoje, os direitos autorais de suas canções, anteriormente gerenciados pela Grand Canyon Music, foram recuperados e posteriormente vendidos para a Sony Music Publishing, uma transação estratégica que reflete o valor contínuo de seu catálogo. Gottehrer, apesar de ter interrompido a composição por um tempo para se dedicar à The Orchard, lamenta essa pausa, reconhecendo que “a canção é a coisa que tem mais valor” e que “estilos musicais mudam, mas o valor do que se ganha no nosso negócio, a canção é o que tem mais valor”. Sua reflexão sublinha uma verdade atemporal na indústria da música, onde a criação original continua sendo o ativo mais precioso.
Para Gottehrer, o sucesso não é medido apenas pelo retorno financeiro, que ele aprecia como sustento de seu estilo de vida, mas pela profunda satisfação do processo criativo. Aquele momento, às quatro da manhã no estúdio, ao ouvir a reprodução de uma faixa e finalmente ver a visão sonora de sua mente se materializar, a qualidade da vida infundida nessa busca, é a verdadeira recompensa. Ele continua a produzir, e nomes como The Fleshtones (“American Beat”) e The Bongos (“Number With Wings”, “Tiger Nights”) atestam sua capacidade de identificar e moldar sons que ressoam. A discussão sobre a importância de locais como Max’s Kansas City e CBGBs para a cena punk de Nova York também é um testemunho de sua imersão e influência em diversas eras e subculturas musicais.
Fonte: https://www.billboard.com















