A Trajetória da Cybertruck na Cultura Pop Televisiva
Do Protótipo à Pauta Cômica
A jornada da Tesla Cybertruck, desde sua revelação como protótipo em 2019 até sua chegada às ruas em 2023, foi marcada por controvérsias e expectativas. Contudo, seu verdadeiro ponto de inflexão cultural ocorreu em 2024, quando o envolvimento de Elon Musk na campanha política de Donald Trump transformou o veículo em um símbolo ainda mais carregado. A indústria televisiva, com seus longos ciclos de produção, começou a incorporar essa percepção em suas narrativas, culminando em aparições que solidificaram a Cybertruck como um objeto de escárnio e representação de traços de caráter indesejáveis.
Um dos primeiros exemplos notáveis foi na quarta temporada de “The Righteous Gemstones”, da HBO, exibida em março de 2025, mas filmada entre maio e outubro de 2024. No episódio “He Goeth Before You Into Galilee”, a revelação de uma Cybertruck estacionada sobre a água intriga os espectadores até o desfecho, quando se descobre que o veículo pertence a Baby Billy (interpretado por Walton Goggins). Este personagem é retratado como o mais enganoso de um clã de vigaristas, constantemente envolvido em esquemas de pirâmide e fraudes. Ao optar pela Cybertruck em vez das opulentas Escalades dirigidas por outros membros da família, o programa sublinha a natureza oportunista e o gosto duvidoso de Baby Billy, sugerindo uma associação direta entre o veículo e a desonestidade.
Logo depois, em julho de 2025, “It’s Always Sunny in Philadelphia”, da FX, apresentou o episódio “Thought Leadership: A Corporate Conversation”. Filmada no final de 2024, a 17ª temporada satiriza de forma descompromissada o universo corporativo e a cultura de Silicon Valley. A gangue do Paddy’s Pub, em sua obsessão com a Cybertruck, profere frases como “Eu amo aquele caminhão. Fico furioso que todos os carros não se pareçam com isso” e o descreve como “um losango sobre rodas”. Embora inicialmente pareça um ponto de enredo mais complexo, a série usa o veículo para epitomizar o que há de errado com a cultura empresarial moderna, com a qual a própria gangue, intrinsecamente falha, se identifica. Dennis (Glenn Howerton) exalta a “agressão sexual” do carro, enquanto a Garçonete (Mary Elizabeth Ellis) demonstra desinteresse, rejeitando a Cybertruck como prêmio em um campeonato de luta.
Nuances e Ambiguidade: Quando a Cybertruck Quebra o Estereótipo
Entre o Ridículo e o Funcional
Apesar da tendência predominante de associar a Cybertruck a vilões e figuras de gosto questionável, algumas produções televisivas apresentaram o veículo com uma camada de ambiguidade, ou até mesmo com uma função mais positiva, subvertendo a narrativa do “carro de perdedor”. Essas representações mais complexas muitas vezes surgem em séries com inclinações políticas ou temáticas que diferem da maioria dos programas mais abertamente críticos à picape elétrica.
No outono de 2025, a Cybertruck teve um período de destaque em diversas produções. Em “Chad Powers”, da Hulu, o personagem titular, um ex-jogador de futebol americano interpretado por Glen Powell, dirige uma Cybertruck, que o programa utiliza para reforçar sua personalidade superficial e “babaca”. No entanto, a picape transcende a mera piada, servindo como cenário para cenas de sexo constrangedoras e, crucialmente, como meio de transporte para levar um personagem ao hospital após um susto de saúde, demonstrando uma utilidade inesperada. De forma similar, “Tulsa King”, do Paramount+, em um episódio da terceira temporada, explora essa dualidade. O gângster Tyson Mitchell compra uma Cybertruck, elogiando sua blindagem e afirmando que é “como um gângster deve se locomover”. Em contraste, o traficante de maconha, Martin Starr, retruca, “Sim, em ‘Blade Runner’. Na vida real não dirigimos em uma geladeira”. Mais tarde, a suposta blindagem do veículo é testada quando balas de metralhadora não conseguem perfurar sua estrutura, salvando vidas. Ambas as séries, “Chad Powers” e “Tulsa King”, são percebidas como tendo inclinações políticas mais à direita, em contraste com a maioria das produções de Hollywood, geralmente de centro-esquerda. Nesses contextos, a Cybertruck é inicialmente ridicularizada, mas posteriormente recebe um tipo de “redenção”, seja por sua funcionalidade ou por se alinhar a personagens que, embora não sejam necessariamente heróis, demonstram qualidades inusitadas, criando uma ponte ou um aceno para um público que pode não ver o veículo sob uma luz puramente negativa.
Outros exemplos, embora mais diretos em sua crítica, incluem “Nobody Wants This Season 2”, da Netflix, onde um personagem risca uma Cybertruck que quase atropelou um bebê, com Adam Brody e Kristen Bell observando horrorizados. Em “Platonic”, da Apple TV, o personagem de Seth Rogen associa a ascensão das Cybertrucks à deterioração de um bairro de Los Angeles. Já em “Loot”, também da Apple, a personagem Ashlee, uma golpista interpretada por D’Arcy Carden, aparece em uma Cybertruck rosa choque com a placa “SPAGHET”, cantando mal e bebendo energéticos, reforçando a imagem de mau gosto e comportamento excêntrico.
A Cybertruck como Barômetro Cultural e Comercial
A explosão de aparições da Cybertruck na televisão nos últimos meses solidifica sua posição como um poderoso símbolo cultural. A picape elétrica tornou-se um atalho visual, um clichê facilmente reconhecível para comunicar de forma rápida e eficaz as características negativas de um personagem. Seja por seu design angular e “inacabado”, que frequentemente evoca a imagem de um objeto ainda não renderizado digitalmente, ou por sua associação com figuras públicas controversas, a Cybertruck é, para a indústria televisiva, um exemplar de mau gosto e decisões questionáveis.
Os exemplos mais recentes são particularmente elucidativos. Em “Jury Duty Presents: Company Retreat”, a segunda temporada do falso-reality, os vilões corporativos de um grupo de private equity, a Triukas, chegam dirigindo uma Cybertruck. Pouco depois, na estreia da terceira temporada de “Euphoria”, Nate Jacobs (Jacob Elordi), que transita de um valentão de ensino médio para um desenvolvedor imobiliário endividado, é visto ao volante de uma. O ápice dessa tendência veio com “The Boys”, onde The Deep (Chace Crawford), amplamente considerado o personagem mais patético da série, dirige uma Cybertruck, exacerbando o constrangimento ao tocar Limp Bizkit em alto volume. Nesses contextos, a mensagem é clara: o motorista da Cybertruck é, de alguma forma, inadequado, presunçoso ou simplesmente “perdedor”.
Essa percepção é reforçada pela conexão pós-eleitoral da Cybertruck com a figura de Elon Musk, suas políticas e a polarização que ele representa. Para grande parte de Hollywood, de inclinação liberal, a Cybertruck tornou-se um proxy visual para uma certa ideologia, equating-se a “mau” ou “questionável”. Além do simbolismo político e social, o desempenho comercial do veículo também contribui para sua imagem de “saco de pancadas” na tela. Relatórios recentes, como o da Bloomberg, indicam uma queda de mais de 50% nos registros da Cybertruck, com uma parcela significativa das vendas sendo para a própria SpaceX de Elon Musk, sugerindo que a Tesla está, em certa medida, vendendo carros para si mesma. Essa dificuldade de vendas, similar à do DeLorean antes de sua “redenção” em “De Volta Para o Futuro”, facilita que o veículo seja alvo de piadas.
A questão de por que a Tesla permitiria tal representação negativa na televisão é complexa. Embora o adágio de que “toda publicidade é boa publicidade” possa ser invocado em casos de acordos de mídia ou product placement, é mais provável que muitas dessas produções simplesmente comprem ou aluguem as Cybertrucks por conta própria, exercendo sua liberdade de expressão. Geralmente, as montadoras evitam acordos de product placement quando seus veículos são associados a vilões ou destruídos em cenas de ação. Com poucas exceções, como “Tulsa King”, é improvável que a Tesla aprovaria o uso de seu veículo por um “homem-peixe homicida e abusivo” como The Deep.
Em última análise, assim como os charlatães e vilões que as dirigem na TV, a Cybertruck é frequentemente apresentada como algo que talvez não seja tudo o que promete. Como um personagem em “It’s Always Sunny” admitiu tardiamente: “Tenho que ser honesta… acho que o caminhão é feio”. Independentemente de ser considerada feia ou o epítome do futurismo, por enquanto, a Cybertruck serve como um sinal inequívoco para os roteiristas comunicarem instantaneamente aos espectadores: este personagem não é exatamente admirável, refletindo uma percepção cultural e comercial que se tornou parte integrante de sua narrativa na tela.
Fonte: https://www.ign.com















