A mais recente incursão cinematográfica no universo sombrio e apaixonante de “Wuthering Heights”, sob a batuta da aclamada cineasta Emerald Fennell, promete redefinir a estética das adaptações de clássicos. Longe das representações tradicionais, Fennell, conhecida por sua abordagem arrojada e visualmente impactante, desafiou sua equipe de produção a criar um ambiente que transcende a mera recriação de época. A designer de produção Suzie Davies, uma colaboradora frequente de Fennell e experiente em dramas de época, encontrou-se diante de um projeto que exploraria a fundo a psique dos personagens e a atmosfera sufocante da história de Emily Brontë. A premissa? Transformar a pele de uma atriz de renome, Margot Robbie, em inspiração para o papel de parede do quarto de Cathy, e conceber paredes que literalmente parecessem suadas e úmidas, mergulhando o espectador em uma experiência sensorial sem precedentes. Este olhar inovador para o design de produção busca encapsular a essência visceral e atormentada do romance gótico.
A Reinvenção Estética e a Colaboração Criativa
A parceria entre Emerald Fennell e Suzie Davies
A colaboração entre Emerald Fennell e Suzie Davies não é novidade no cenário cinematográfico. Com um histórico de trabalhos conjuntos que incluem o extravagante “Saltburn”, Davies já demonstrou sua capacidade de dar vida a mundos complexos e ricos em detalhes. Sua familiaridade com dramas de época a tornava uma escolha natural para “Wuthering Heights”. Contudo, a visão de Fennell para este clássico literário estava longe de ser convencional. O que inicialmente parecia ser mais uma oportunidade de trabalhar em um período que dominava, rapidamente se revelou um convite para desmantelar as expectativas e forjar uma linguagem visual completamente nova. A dinâmica entre diretora e designer de produção foi fundamental para traduzir conceitos audaciosos em realidades tangíveis no set, estabelecendo um padrão de inovação que distingue esta adaptação.
A ambição de Fennell para “Wuthering Heights”: Uma atmosfera visceral
A ambição de Emerald Fennell para “Wuthering Heights” transcendeu a simples recriação histórica. Sua intenção era mergulhar nas profundezas da paixão obsessiva, da tragédia e do isolamento que permeiam a narrativa de Brontë, traduzindo-os em uma experiência cinematográfica visceral e psicológica. Fennell buscava uma atmosfera que não apenas refletisse, mas também intensificasse os tormentos internos dos personagens e a aspereza do cenário das charnecas. Isso exigiu que Suzie Davies e sua equipe repensassem cada elemento do design de produção. Em vez de uma beleza polida e idealizada, a diretora almejava uma crueza e uma autenticidade que pudessem evocar a umidade do ar, o mofo das paredes e a sensação sufocante de um amor condenado. Cada escolha estética foi pensada para servir à narrativa emocional, transformando o ambiente em um personagem ativo e palpável na trama. O design de produção se tornou, assim, um veículo para a imersão sensorial do público, desafiando as convenções e ampliando os limites da expressão visual no cinema de época.
A Imersão Sensorial: Da Pele Humana à Textura das Paredes
A escolha incomum da pele de atriz como inspiração para o papel de parede
Entre as inovações mais marcantes desta adaptação de “Wuthering Heights” está a surpreendente inspiração para o papel de parede do quarto de Cathy: a pele humana, mais especificamente, a pele da aclamada atriz Margot Robbie. Esta escolha, aparentemente excêntrica, revela uma profundidade simbólica que permeia toda a visão de Emerald Fennell. A pele, o invólucro mais íntimo e exposto do ser, representa vulnerabilidade, sensibilidade e a própria essência carnal da existência. Ao transferir essas qualidades para o cenário, o design de produção busca criar uma conexão intrínseca entre o ambiente e a psique da personagem. O papel de parede, antes um mero elemento decorativo, transforma-se em uma extensão da alma de Cathy, um eco visual de sua intensidade emocional, de sua paixão avassaladora e de seu inevitável declínio. A textura, cor e luminosidade que evocam a pele humana infundem o espaço com uma sensação de intimidade quase perturbadora, sugerindo que o próprio quarto respira e sente com a protagonista, tornando-se um palco vivo para seus conflitos internos e seu destino trágico. É uma manifestação poderosa da narrativa visual, onde cada detalhe contribui para a imersão do espectador na turbulência do mundo de Brontë.
A técnica por trás das paredes “suadas e úmidas”
Para complementar a estética orgânica do papel de parede inspirado na pele, a equipe de Suzie Davies enfrentou o desafio de fazer com que as paredes de “Wuthering Heights” parecessem perenemente “suadas e úmidas”. Esta não foi uma mera questão de estética, mas uma estratégia deliberada para evocar a atmosfera lúgubre, opressiva e inequivocamente gótica da charneca de Yorkshire e da decrépita propriedade dos Earnshaw. A umidade constante nas paredes simboliza a decadência física e moral do ambiente, a inexorável passagem do tempo e a sensação de claustrofobia que aprisiona os personagens. Para atingir este efeito, a equipe de design de produção explorou diversas técnicas e materiais. Misturas especiais de tintas e vernizes, que reagem à luz de maneiras específicas, foram aplicadas em camadas para criar um brilho sutil e uma profundidade que simulasse a condensação. O uso estratégico de iluminação, com luzes difusas e sombras pronunciadas, acentuou a textura e a percepção de umidade, fazendo com que as paredes parecessem respirar e transpirar. Além disso, a incorporação de elementos orgânicos no cenário, como musgo sutil ou manchas de mofo controladas, contribuiu para a autenticidade visual. Esta abordagem meticulosa não só estabeleceu um ambiente visualmente distinto, mas também serviu como uma ferramenta narrativa poderosa, mergulhando o espectador na atmosfera densa e sufocante que define a tragédia de “Wuthering Heights”. O resultado é uma experiência sensorial que transcende o meramente visual, apelando a sensações táteis e olfativas imaginárias, e solidificando a inovação no design de produção como um pilar central desta audaciosa adaptação.
Um Legado Reinterpretado e a Inovação no Design Cinematográfico
A adaptação de “Wuthering Heights” sob a direção de Emerald Fennell representa um marco na reinterpretação de clássicos literários, especialmente no que tange ao design de produção. A visão singular de Suzie Davies, que transformou a pele de uma atriz em inspiração para o papel de parede e concebeu paredes que exalam umidade, eleva a direção de arte de mera ambientação a um elemento narrativo e sensorial de profunda relevância. Esta abordagem audaciosa não só desafia as convenções das adaptações de época, mas também reafirma o poder do cinema em inovar e explorar novas linguagens visuais. Ao infundir o cenário com uma organicidade quase palpável, que espelha as paixões e os tormentos dos personagens, Fennell e Davies conseguem criar uma experiência cinematográfica que é simultaneamente fiel ao espírito gótico e emocionalmente cru do romance original, e radicalmente contemporânea em sua execução. A escolha de detalhes tão específicos e simbólicos enriquece a narrativa visual, permitindo que o ambiente ressoe com a angústia e a intensidade dos destinos interligados de Heathcliff e Cathy. Este projeto se destaca como um testamento à capacidade da equipe criativa em transpor um clássico literário para a tela com uma vitalidade e uma originalidade que o recontextualizam para uma nova geração, solidificando “Wuthering Heights” como uma obra atemporal, capaz de inspirar abordagens artísticas ousadas e inesquecíveis.
Fonte: https://variety.com











