A arte nas trincheiras: divisões e o futuro da música

Há mais de um século, o universo da arte, em especial o da música, tem sido palco de uma profunda fragmentação, criando um verdadeiro “apartheid” estético e social. Essa divisão artificial separa a criação artística em compartimentos estanques: de um lado, a música erudita confinada a teatros e universidades; de outro, a popular, relegada a estádios, botecos e guetos sociais. Essa polarização, muitas vezes impulsionada por discursos polarizados de diversos grupos, impede que a música flua livremente, transformando-a em mero rótulo ou ferramenta funcional. A imposição de etiquetas, frequentemente ditadas por uma elite intelectual ou por setores ideológicos bem-intencionados, acaba por tornar a arte inacessível ou eternamente repetitiva, comprometendo sua capacidade de inovação e sua ressonância com o público.

A polarização do cenário artístico e o papel dos “bons”

A dicotomia entre o erudito e o popular

A longa história da música moderna é marcada por uma crescente dicotomia entre o que se convencionou chamar de erudito e popular. Essa separação não é apenas uma questão de gênero ou estilo, mas de contextos de consumo, públicos-alvo e, em última instância, de valorização. O termo “apartheid” musical é evocativo para descrever a rigidez dessas fronteiras, onde a música erudita é percebida como um domínio exclusivo de intelectuais e de um público mais elitizado, enquanto a música popular é vista como a expressão autêntica das massas. Essa divisão é frequentemente alimentada por grupos de influenciadores e críticos, genericamente denominados como “os bons”, que, movidos por ideologias distintas, acabam por reforçar preconceitos e desvalorizar uma das esferas em detrimento da outra.

De um lado, encontram-se aqueles que defendem a primazia do popular, argumentando que ele é a verdadeira manifestação do povo e, portanto, inerentemente bom. Esses críticos frequentemente acusam a arte erudita de ser opressora, elitista e excessivamente complexa, rotulando-a como um instrumento de dominação cultural. Por outro lado, há os defensores intransigentes da erudição, que veem nela o ápice da realização artística, um ideal a ser perseguido com esforço e dedicação. Para eles, a arte erudita não é algo para ser desfrutado naturalmente, mas uma meta a ser alcançada, muitas vezes desconsiderando a espontaneidade e a acessibilidade que podem caracterizar a experiência artística. A consequência dessa polarização é um ambiente onde o novo tem que ser velho para uns, e o velho tem que ser destruído para outros, criando uma barreira para a verdadeira inovação e para a livre fruição da beleza artística.

A busca por adequação e a perda de fronteiras

Um dos maiores obstáculos para o desenvolvimento de uma arte mais elevada e universal é a incessante busca por adequação a procedimentos preestabelecidos, gêneros específicos ou regionalismos limitantes. Essa busca, frequentemente incentivada pelos mesmos “bons”, estabelece fronteiras artificiais que a verdadeira erudição, em sua essência, deveria transcender. A arte, quando aprisionada por tais categorizações, perde sua capacidade de inovar e de dialogar com diferentes contextos culturais. A beleza, afinal, não é um privilégio da complexidade. Muitas obras simples podem ser profundamente belas, enquanto algumas extravagâncias artísticas, impopulares pela sua complexidade ou dissonância, podem ser vistas como rupturas necessárias, mesmo que resultem em uma forma de “feiura” proposital que serve para romper grilhões.

Paradoxalmente, essa busca por ruptura e originalidade a qualquer custo, por vezes, leva a uma autonegação da própria arte. Alguns compositores eruditos, em sua ânsia por liberdade e por desafiar as convenções, produzem obras tão complexas e inaudíveis que acabam por afastar o público e, ironicamente, contribuem para o que muitos veem como a “morte” da música erudita. Eles admitem uma despreocupação com a popularidade, priorizando a finalidade da obra sobre sua fruição, o que, em tese, deveria ser estranho ao espírito da erudição, que tradicionalmente busca a transcendência e a comunicação. Esse “atentado” contra a própria forma musical, ao tornar a arte inacessível, fragiliza ainda mais a ponte entre o criador e o receptor, isolando a produção erudita em um gueto de autocelebração.

Desafios contemporâneos para a arte: do folclore à massificação

O popular: folclore versus consumo em massa

A palavra “popular”, no contexto da arte, carrega consigo um duplo significado que é crucial discernir. Há o popular que remete ao folclore, às expressões culturais intrínsecas às características de um povo. Este tipo de popular, ao invés de prejudicar a erudição, muitas vezes a enriquece e serve de inspiração, como evidenciado nas polonaises de Chopin, que, embebidas de nacionalismo polonês, transcenderam as fronteiras para alcançar um impacto universal. O gênio romântico de Chopin conseguiu fazer do rio Vístula, símbolo da Polônia, um afluente do universal, demonstrando que a identidade cultural pode ser um trampolim para a arte maior, e não uma restrição.

No entanto, o segundo significado de “popular” refere-se à arte produzida em massa, com foco no consumo em larga escala. Esse tipo de produção, voltado para as dinâmicas do mercado e da indústria cultural, muitas vezes corre o risco de anular a essência artística em nome da utilidade, da mensagem ou do entretenimento puro. Exemplos como o rap e o funk carioca ilustram essa discussão. Enquanto o rap pode ser visto como uma poderosa mensagem social, evocando cantos de guerra e protesto, o funk, em muitas de suas manifestações, é frequentemente reduzido a uma forma de dança, apesar de por vezes apresentar inovações em timbres e manipulações eletroacústicas. Nesses casos, a utilidade da música – seja como veículo de mensagem ou como propulsor de dança – pode excluir qualquer vestígio de erudição ou de valor artístico intrínseco, focando-se mais na funcionalidade social ou no apelo imediato.

A anulação artística na música de massa e a crise da erudição

A crítica à anulação artística não se restringe apenas à música de massa. No campo da erudição contemporânea, também se observa o uso de processamentos de áudio, sínteses aditivas e transformações eletroacústicas que, por vezes, são aplicados de forma tão radical que aniquilam um ou mais dos elementos fundamentais da música, como melodia, harmonia ou ritmo. Essas experimentações, embora possam ser vistas como inovadoras, chegam a um ponto em que a obra deixa de ser reconhecível como música, esvaziando a própria arte de seu poder comunicativo e estético. Essa prática, em sua busca por originalidade ou ruptura, pode levar a uma espiral de desinteresse e inaudibilidade, tanto para o público geral quanto para os entusiastas da música erudita.

A crise da erudição se aprofunda quando questionamos o papel das instituições tradicionais. É pertinente indagar o que a manutenção de orquestras e teatros, frequentemente subsidiados pelo Estado e, portanto, pelo contribuinte, tem feito pela evolução da música erudita. Uma erudição que se mantém estagnada no tempo, financiando a reprodução eterna das mesmas obras e se transformando em um evento social ou uma “museologia” cara, levanta sérias dúvidas sobre seu propósito e relevância. A alta cultura só conseguirá produzir novos clássicos se for capaz de absorver o espírito do tempo e dialogar com ele, em vez de se fechar em uma redoma de tradições imutáveis ou de complexidade impenetrável. Proteger o artista sem proteger a arte, exaltando a compaixão e a justiça social acima da obra em si, não parece ser um caminho sustentável para o futuro da criação musical, evidenciando uma desconexão preocupante entre a produção cultural e o seu público.

O declínio da arte em meio a divisões ideológicas

A arte, em suas diversas manifestações, enfrenta um período de profundo declínio, resultado direto de uma polarização ideológica que insiste em segmentá-la. A dicotomia artificial entre erudito e popular, exacerbada por discursos apaixonados e frequentemente dogmáticos, tem corroído a capacidade da criação artística de transcender fronteiras e emocionar universalmente. Seja pela tentativa de “cancelar” figuras históricas da música erudita sob a alegação de eurocentrismo, ou pela adesão intransigente a caixinhas do século XIX que impedem a inovação, ambos os lados contribuem para a estagnação. A música erudita corre o risco de ser empurrada para as “catacumbas” da irrelevância, enquanto o popular, em sua versão massificada, pode se distanciar tanto do comércio que perderá seu apelo, ou perder sua alma ao se render completamente a ele. Em essência, a vitalidade de ambas as esferas está em risco.

A verdade é que a popularização de uma obra reside em sua capacidade de agradar em seu tempo e de, mais importante, permanecer relevante, consolidando-se como um clássico. Sem essa capacidade de absorver e refletir o espírito da época, a alta cultura dificilmente conseguirá gerar novas obras que perdurem. A preocupação excessiva com a adequação a narrativas ideológicas ou com a proteção do artista em detrimento da obra em si, desviando o foco do mérito artístico para considerações extrínsecas como compaixão ou justiça social, enfraquece a arte em sua essência. O atual cenário, onde diplomas e especialistas vendem “mentiras embaladas para presente” e a verdade é moldada conforme conveniências ideológicas, demonstra a covardia em diagnosticar o óbvio: a arte está morrendo, tanto em suas formas eruditas quanto populares, por inanição ideológica e por falta de coragem em enfrentar os reais desafios de sua evolução. É imperativo que se rompam essas trincheiras e se defenda a arte em sua integridade, livre das amarras de polarizações que apenas contribuem para seu definhamento.

Fonte: https://www.naoeimprensa.com

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