A Tese de Augusto Del Noce e O suicídio da revolução O filósofo italiano

O Materialismo e a Trajetória da Esquerda

Da Crítica Social à Assimilação Liberal

A essência da tese de Del Noce reside na observação de que o materialismo, quando elevado a princípio fundamental de uma ideologia revolucionária, age como um catalisador para a sua própria autodestruição. Para o filósofo, a esquerda, ao adotar uma visão de mundo onde a realidade se resume primordialmente a aspectos materiais e econômicos, sem a devida consideração por valores espirituais, morais ou culturais, pavimenta o caminho para a sua assimilação pelo liberalismo. Este último, embora frequentemente visto como um antagonista, compartilha com o materialismo uma ênfase na liberdade individual e na busca por bem-estar material, albeit através de mecanismos de mercado e acumulação.

Del Noce argumenta que a desvalorização sistemática de tudo que transcende o puramente material — como tradições, ética religiosa ou metafísica — deixa um vácuo que é prontamente preenchido por uma cultura de consumo e individualismo desenfreado, pilares do liberalismo capitalista. A promessa revolucionária de uma sociedade mais justa e igualitária, focada na transformação das condições materiais, acaba por perder sua ancoragem em princípios éticos mais profundos. Sem essa fundação, a própria luta revolucionária se esvazia de seu conteúdo transcendente, convertendo-se em uma mera disputa por poder e recursos dentro de uma estrutura que, paradoxalmente, se assemelha cada vez mais àquela que pretendia derrubar. O ativismo, antes movido por um ideal de transformação radical, pode degenerar em uma busca por avanços dentro das fronteiras do sistema, adaptando-se às suas lógicas e, em última instância, perpetuando-o.

O Paradoxo do Suicídio Revolucionário

Quando a Concretização Leva à Aniquilação

O cerne da análise de Del Noce é a ideia perturbadora de que o cumprimento da revolução coincide, de forma intrínseca, com o seu suicídio. Essa concepção paradoxal sugere que o processo revolucionário, ao tentar estabelecer uma nova ordem através do esvaziamento e da desvalorização dos valores tradicionais preexistentes, não consegue sustentar o edifício de sua própria criação. O que se segue, segundo Del Noce, não é uma transição para uma utopia, mas uma inevitável recaída na velha ordem, porém agora desprovida dos fundamentos e valores que a estruturavam e lhe davam sentido. A promessa de um futuro radicalmente novo se dissolve em uma repetição do passado, mas um passado profanado e despojado de sua essência.

O filósofo italiano distingue a revolução em dois momentos cruciais: o negativo e o positivo. O momento negativo envolve a desvalorização e a destruição da ordem tradicional e de seus valores intrínsecos. É a fase da negação, da ruptura com o passado. O momento positivo, por sua vez, deveria consistir no estabelecimento de uma nova ordem, alicerçada em novos valores e princípios. O “suicídio da revolução” ocorre, precisamente, quando esses dois momentos se perdem ou se desconectam no decorrer do processo. Em vez de uma transição exitosa para a nova ordem, o que se observa é o fracasso em construir algo substancialmente diferente. A destruição do antigo não é seguida pela edificação do novo, mas por uma regressão a uma versão do antigo, mas agora esvaziada de qualquer significado ou valor profundo. A consequência é uma sociedade sem referências éticas claras, mergulhada num niilismo prático onde o que resta são apenas as estruturas vazias de um passado que já não se compreende plenamente.

A Praxis e a Redução do Humano em um Contexto Conclusivo

A reflexão de Augusto Del Noce estende-se à concepção marxista da “praxis”, particularmente àquela defendida na segunda tese de Marx sobre Feuerbach, que eleva a ação transformadora a um princípio fundamental. Para Marx, a praxis implica dedicar a vida à transformação do estado presente da sociedade em função de um ideal a ser conquistado no futuro. No entanto, Del Noce adverte que, se essa transformação descartar os valores fundamentais que são inerentes à própria sociedade e à condição humana, o resultado será a redução do ser humano às suas meras necessidades materiais. A visão de um homem integral, dotado de dimensões espirituais, culturais e éticas, é sacrificada em nome de uma busca exclusiva por satisfação material ou econômica.

Neste cenário, a própria libertação prometida pela revolução se revela uma nova forma de aprisionamento, onde o indivíduo, despojado de seus valores mais profundos, torna-se um mero agente econômico ou um consumidor em potencial. A crítica de Del Noce, portanto, não é apenas um lamento sobre o destino da esquerda ou um ataque ao materialismo, mas uma profunda reflexão sobre a perda de sentido na sociedade moderna. Sua obra convida a um reexame das bases filosóficas das aspirações revolucionárias e a uma valorização de uma dimensão do humano que transcende o meramente tangível, propondo um alerta contundente sobre as consequências de construir o futuro sem um sólido alicerce moral e espiritual.

Fonte: https://www.naoeimprensa.com

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