Descoberta e Escala Inédita dos Deslizamentos em Plutão
A Revelação da Sonda New Horizons
A sonda New Horizons da NASA, ao realizar seu sobrevoo épico por Plutão em 4 de julho de 2015, capturou uma riqueza de dados visuais que, anos mais tarde, continuam a desvendar os segredos do planeta anão. Uma equipe de geólogos, liderada pelo pesquisador Marco Emanuele Discenza, empreendeu uma análise meticulosa das imagens captadas pelo instrumento LORRI (Long-Range Reconnaissance Imager) da sonda, que possui a capacidade de identificar feições superficiais com detalhes de até 300 metros. O escrutínio dessas imagens desvelou provas contundentes da ocorrência de seis deslizamentos de terra distintos, localizados nas paredes internas de três crateras situadas na borda oeste da Sputnik Planitia, a vasta bacia em forma de coração que é uma das características mais emblemáticas da superfície plutoniana.
Embora deslizamentos de terra e processos geomorfológicos análogos tenham sido previamente identificados em uma série de corpos celestes no nosso sistema solar – incluindo Marte, o planeta anão Ceres no cinturão de asteroides, algumas das luas geladas dos gigantes gasosos e até mesmo Caronte, a maior lua de Plutão –, estes são os primeiros a serem inequivocamente localizados na própria superfície de Plutão. Esta distinção é crucial, pois confirma uma atividade geológica intrínseca ao planeta anão, separada da influência gravitacional de corpos maiores.
Dentre os eventos identificados, um deslizamento de proporções significativas, com material que percorreu cerca de 2,2 quilômetros, foi notado na Cratera Coughlin de Plutão. Curiosamente, este deslizamento parece estar associado a uma cratera secundária menor na borda de Coughlin, levantando a hipótese de que o impacto que formou esta última possa ter sido o gatilho inicial para o deslocamento de material. Além deste, outras duas características de deslizamento foram observadas na Cratera Giclas, e um grupo adicional de três deslizamentos foi detectado em uma terceira cratera que permanece sem nome oficial, expandindo o mapa de atividade superficial do planeta anão.
Características e Mobilidade Surpreendente
O Fenômeno da Alta Mobilidade do Gelo
Os deslizamentos em Plutão foram identificados por suas extensas “saias” de detritos, ou aprons de detritos, que se espalharam pelos leitos das crateras. A distância percorrida pelo material desses deslizamentos variou entre 10,1 e 14,5 quilômetros, um indicativo da notável mobilidade do material. Algumas dessas formações de detritos apresentavam uma topografia irregular, como se contivessem grandes blocos de gelo sólido. As áreas de origem dos deslizamentos, por sua vez, exibiam escarpas bem definidas, de formato côncavo, evidenciando o local onde o material se desprendeu e rolou pelas paredes íngremes das crateras.
A extraordinária distância percorrida por esse material significa que os deslizamentos em Plutão estão entre os mais móveis já observados em todo o sistema solar. Essa alta mobilidade é atribuída a uma combinação de fatores: a baixa gravidade de Plutão, que permite que o material se desloque por maiores distâncias com menos resistência, e a natureza do terreno, composto por gelo com baixo atrito. O maior desses aprons de detritos se estende por uma área impressionante de 130 quilômetros quadrados. Para colocar em perspectiva, uma área desse tamanho seria suficiente para soterrar completamente uma pequena cidade ou até mesmo uma grande metrópole terrestre, ilustrando a escala monumental desses eventos geológicos no distante mundo gelado.
Possíveis Causadores dos Eventos Geológicos
Deslizamentos de terra são processos geológicos cruciais que desempenham um papel fundamental na remodelagem das superfícies planetárias, facilitando o transporte de material através de vastas distâncias. Contudo, o mecanismo exato que desencadeou os deslizamentos em Plutão ainda não é completamente compreendido. Embora o deslizamento na Cratera Coughlin pareça ter sido provocado por um impacto menor nas proximidades, a origem dos outros cinco deslizamentos é menos clara e apresenta desafios adicionais para os cientistas.
Uma das hipóteses mais promissoras aponta para a atuação de estresses térmicos no gelo superficial. Esses estresses seriam causados por sutis, mas significativas, variações de temperatura que levam os materiais voláteis de Plutão – incluindo nitrogênio molecular, monóxido de carbono e metano – a sublimar periodicamente (passar diretamente do estado sólido para o gasoso) e, posteriormente, a condensar novamente (retornar ao estado sólido). Essas flutuações de temperatura são um resultado direto da órbita elíptica de Plutão, que o aproxima ligeiramente do Sol, cruzando temporariamente a órbita de Netuno, e depois o afasta novamente para as regiões mais gélidas do sistema solar. Essas mudanças cíclicas de aquecimento e resfriamento podem fragilizar o gelo e as rochas na superfície, tornando-as suscetíveis a colapsos e deslizamentos.
Implicações para a Atividade Geológica do Planeta Anão
A descoberta desses deslizamentos em Plutão não é apenas um detalhe topográfico; ela carrega profundas implicações para nossa compreensão da geologia e evolução de planetas anões e outros corpos celestes distantes. Ela reforça a ideia de que Plutão não é um mundo estático e inerte, mas sim um corpo dinâmico, onde processos geológicos continuam a ocorrer em escalas de tempo que, embora longas para a perspectiva humana, são ativas no contexto cósmico. Essa atividade superficial sugere que o interior de Plutão ainda pode ser termicamente ativo, possivelmente sustentando um oceano subsuperficial ou outros processos internos que impulsionam essa geodinâmica.
A natureza e o volume dos materiais deslocados, bem como a extensão da mobilidade observada, oferecem pistas valiosas sobre a composição e as propriedades físicas da crosta gelada de Plutão. Os “boulders” de gelo e a baixa fricção do material indicam uma superfície complexa e heterogênea, com diferentes tipos de gelos e talvez inclusões rochosas. Contudo, a cobertura limitada da superfície de Plutão pela New Horizons, dada sua passagem rápida em 2015, significa que muitas áreas ainda não foram observadas com a resolução necessária. Existem indícios de mais deslizamentos em outras crateras, mas a confirmação exigirá dados adicionais que, por enquanto, permanecem fora do nosso alcance. Esta limitação serve como um lembrete da vasta extensão de Plutão e dos muitos mistérios que ainda aguardam futuras missões e análises aprofundadas, reforçando a importância de continuar explorando os confins gelados do nosso sistema solar.
Fonte: https://www.space.com















