No efervescente cenário da França do século XVIII, em meio ao florescimento de novas ideias e transformações sociais, emergiu uma corrente filosófica e comportamental peculiar conhecida como “sensiblerie”. Esta sensibilidade elevada, frequentemente adotada como um estilo de vida pela classe ociosa, caracterizava-se por uma profunda aversão à rotina comum e uma exaltação do indivíduo de intelecto apurado e emoções à flor da pele. Paradoxalmente, enquanto seus adeptos podiam ser profundamente comovidos pela imagem de uma família camponesa em dificuldades, demonstravam notável frieza diante de iniciativas concretas e planejadas para a melhoria das condições de vida dessa mesma classe. Era um período de intensa reflexão sobre a natureza humana, a sociedade e o progresso, onde a emoção e a razão travavam um embate constante, moldando os debates intelectuais que viriam a influenciar toda uma era.
A “Sensiblerie” e as Críticas Iluministas
O Culto à Sensibilidade e a Vida Ociosa
A “sensiblerie” representava mais do que uma mera moda; era uma manifestação cultural e filosófica que capturava o espírito de uma parcela da elite francesa pré-revolucionária. Essa corrente valorizava uma percepção aguçada e uma resposta emocional intensa aos estímulos do mundo, em contraste com a praticidade e a objetividade. Seus seguidores, frequentemente provenientes das camadas mais abastadas da sociedade, podiam ser vistos derramando lágrimas diante de cenários bucólicos idealizados ou de relatos de miséria, mas sem, contudo, engajarem-se em ações que pudessem realmente mitigar o sofrimento que tanto os emocionava. A literatura da época, especialmente a poesia, frequentemente ecoava essa idealização da vida campestre simples, desprovida de grandes prazeres ou ambições, pintando quadros de uma existência rústica e pura, distanciada das complexidades e corrupções urbanas.
Essa postura, contudo, não passou despercebida nem incólume às críticas. Intelectuais proeminentes do Iluminismo, defensores da razão e do progresso pragmático, observavam com ceticismo e ironia essa excentricidade. Um dos maiores críticos foi François-Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire. Representante máximo da racionalidade iluminista, Voltaire não hesitava em ridicularizar aquilo que via como uma sensibilidade exagerada e hipócrita, que se comprazia na emoção sem se comprometer com a ação transformadora. Para ele, a verdadeira compaixão se manifestava em projetos concretos e na busca por soluções racionais para os problemas sociais, e não em meras demonstrações sentimentais vazias de propósito. Sua postura refletia um embate fundamental entre a emoção idealizada e a razão prática, um dilema central no pensamento do século XVIII.
Jean-Jacques Rousseau e o Chamado ao “Bom Selvagem”
A Crítica à Civilização e o Retorno à Natureza
Em contraponto direto à perspectiva de Voltaire e à superficialidade da “sensiblerie”, emergiu a voz potente e complexa de Jean-Jacques Rousseau. Sua visão do mundo, influenciada por uma perspectiva que muitos classificavam como estoica, argumentava que o avanço da civilização era, na verdade, um fator de alienação para o homem, afastando-o de sua dignidade intrínseca de “bom selvagem”. Para Rousseau, o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe, impondo vícios e reprimindo suas tendências naturais. A busca por virtudes e a libertação dos vícios sociais exigiria um retorno a um estado primordial, onde a humanidade pudesse novamente sintonizar-se com a “voz da natureza” que, segundo ele, ecoava no interior de cada indivíduo.
Essa filosofia se manifesta claramente em suas obras, como no célebre *Émile ou da Educação*, onde ele afirma logo no primeiro parágrafo: “Tudo está bem quando sai das mãos do Autor das coisas; tudo degenera nas mãos do homem”. Rousseau propunha que, para se livrar das amarras da sociedade e alcançar uma verdadeira libertação, seria necessária uma purificação dos costumes, um resgate da autenticidade e uma vida em harmonia com os preceitos naturais. Ele via o homem aprisionado em um complexo de tendências naturais que eram socialmente reprimidas, e a ascensão da virtude ascética era o caminho para desvencilhar-se dessa alienação. Sua obra *Discurso sobre a Desigualdade*, de 1754, foi um marco nesse pensamento, provocando reações diversas e intensos debates entre os intelectuais da época.
Um dos mais famosos intercâmbios intelectuais de seu tempo foi a troca de correspondências com Voltaire. Após receber o *Discurso sobre a Desigualdade*, Voltaire respondeu com uma carta repleta de ironia, que se tornou antológica. Nela, Voltaire agradece pelo livro “contra o gênero humano” e, de forma sagaz, expressa seu ceticismo quanto à capacidade da obra de corrigir os vícios da sociedade. Com sarcasmo mordaz, ele sugere que, ao ler Rousseau, sentir-se-ia “inclinado a andar de quatro patas”, mas lamenta ter perdido esse hábito há mais de sessenta anos, deixando tal “comportamento natural aos que são mais dignos”. A correspondência culmina com a oferta irônica de Voltaire para que Rousseau viesse “respirar o ar puro da terra natal, gozar a liberdade primitiva, beber leite de nossas vacas e pastar o nosso capim”, uma clara alusão à idealização rousseauniana da natureza e uma crítica à sua aparente desconexão com a realidade prática da vida civilizada. Esse diálogo ilustra o profundo fosso ideológico entre a visão do progresso iluminista e a nostalgia rousseauniana por uma pureza primordial.
O Legado de um Debate Fundamental
O intercâmbio filosófico e a efervescência cultural do século XVIII francês, exemplificados pela “sensiblerie”, pelas críticas afiadas de Voltaire e pela filosofia revolucionária de Rousseau, representaram um período de questionamentos profundos sobre a natureza humana, a sociedade e o caminho do progresso. A tensão entre uma sensibilidade idealizada, as soluções pragmáticas para os problemas sociais e a crítica radical à civilização moldou o pensamento de uma era e deixou um legado duradouro. Essas discussões não eram meros exercícios intelectuais; elas pavimentaram o caminho para as grandes transformações políticas e sociais que culminariam na Revolução Francesa, influenciando diretamente as concepções de liberdade, igualdade, governo e a própria identidade do ser humano em sociedade. A busca por autenticidade, a reflexão sobre a corrupção do poder e a idealização de um estado de natureza continuam a ressoar, tornando esse “interlúdio” filosófico uma pedra angular para a compreensão das complexidades e contradições do desenvolvimento humano.
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