O cenário cinematográfico global tem testemunhado uma notável ascensão dos mercados internacionais no domínio do gênero de ação. Filmes como “The Raid: Redemption”, “RRR” e “The Night Comes for Us” redefiniram as expectativas do público, acostumado a produções com abordagens mais convencionais. Essa tendência sublinha uma busca incessante por coreografias mais elaboradas, narrativas viscerais e performances atléticas que transcendem barreiras culturais. Neste contexto dinâmico, surge “The Furious”, a mais recente obra dirigida pelo aclamado Kenji Tanigaki, que promete não apenas honrar essa nova tradição, mas também elevá-la a patamares inéditos. Originário de Hong Kong, o filme se destaca por sua intensidade brutal, sequências de combate alucinantes e um grau de autenticidade que o posiciona como um forte candidato a um dos melhores filmes de ação do ano.
Elenco Estelar e Legado no Gênero de Ação
O Mosaico Global de Talentos
Um dos pilares do sucesso de “The Furious” reside na sua extraordinária reunião de talentos, um verdadeiro crisol de fenômenos internacionais que têm moldado o cenário da ação moderna. Kenji Tanigaki, o diretor, é uma figura proeminente no Japão, reconhecido por sua vasta experiência como dublê e cineasta, com um currículo impressionante que atesta sua audácia e visão sem limites. Sua capacidade de orquestrar sequências de ação complexas e perigosas é evidente em cada quadro do filme, demonstrando uma confiança inabalável em seus artistas e na integridade física de cada movimento.
O elenco principal agrega diversas escolas e estilos de luta. Joe Taslim e Yayan Ruhian, vindos da Indonésia, infundem no filme uma energia visceral e um estilo de combate que estabelece um padrão de excelência para seus colegas. Taslim, com sua presença imponente, e Ruhian, com sua agilidade letal, são figuras emblemáticas do cinema de ação asiático, cujas contribuições elevam a autenticidade das batalhas. Da China, Xie Miao, a estrela principal, traz consigo o legado de múltiplos campeonatos de wushu conquistados na infância, projetando uma combinação rara de técnica apurada e coragem inabalável na tela.
A essa equipe multifacetada somam-se Brian Le, da Califórnia, conhecido por sua abordagem singular ao combate, e Jeeja Yanin, da Tailândia, uma especialista em artes marciais com um estilo próprio. Juntos, eles tecem uma tapeçaria de confrontos que explora a riqueza e a diversidade das técnicas de luta globais. Tanigaki habilmente integra essas diferentes filosofias de combate em uma narrativa de vingança e derramamento de sangue que se desenrola em alta velocidade, garantindo que cada personagem brilhe com sua individualidade, ao mesmo tempo em que contribui para o espetáculo coletivo.
A Trama Intensa e o Desafio Narrativo
A Batalha por Vingança e Justiça
No cerne de “The Furious” pulsa uma narrativa de vingança e sobrevivência que, embora ancorada na violência, procura equilibrar a ação frenética com elementos dramáticos significativos. O enredo central gira em torno de Wang Wei (interpretado por Xie Miao), um homem mudo que vê sua vida virar de cabeça para baixo quando sua filha, Rainy (Yang Enyou), é brutalmente sequestrada por capangas de um império criminoso. Paralelamente, Navin (Joe Taslim), um jornalista destemido, investiga a mesma organização criminosa devido ao desaparecimento de outra pessoa, traçando conexões sombrias que o levam ao mesmo submundo.
Essa convergência de destinos une Wang Wei e Navin em uma aliança improvável, mas poderosa. Ambos estão determinados a desmantelar as operações da família criminosa de dentro para fora, dispostos a quebrar cada osso dos adversários em seu caminho. A motivação é clara: a segurança da filha de Wang Wei e as respostas que Navin busca são primordiais. O filme estabelece que a morte não é uma opção para esses protagonistas, não importa quantos confrontos de alta octanagem eles precisem suportar, o que amplifica a tensão e a intensidade de cada cena de luta.
Apesar da reputação de filmes focados em violência por vezes negligenciarem a profundidade narrativa, “The Furious” se esforça para ir além. O sequestro de Rainy possui uma razão devastadoramente sombria, que quadruplica as apostas caso Wang Wei e Navin falhem. Os vilões são retratados com uma malevolência que beira o demoníaco, garantindo que o diretor Kenji Tanigaki aborde o material com a seriedade que ele exige. Contudo, é notável que, em alguns momentos, o desenvolvimento do diálogo e certos elementos da trama, apesar da contribuição de quatro roteiristas, possam parecer ligeiramente subdesenvolvidos ou impactados por uma dublagem (ADR) questionável. Esses aspectos, embora presentes, não comprometem de forma prejudicial a experiência imersiva que o filme proporciona ao arrastar seus personagens para as profundezas do inferno.
A Coreografia Impecável e o Impacto Cinematográfico
A Sinuosidade da Luta e a Imersão Dinâmica
“The Furious” entrega tudo o que seu título promete, e mais. A coreografia de Tanigaki é um turbilhão de movimentos rápidos e intrincados, que desferem golpes punitivos com uma precisão assombrosa. Isso é um testemunho da imensa confiança que ele deposita em seus artistas e na dedicação destes em cada performance. Xie Miao e Joe Taslim demonstram um equilíbrio e controle corporal impressionantes, girando em ângulos de chute impossíveis ou transicionando de uma imobilização para outra em milissegundos. No entanto, eles estão longe de serem os únicos destaques. Brian Le, com seu estilo de luta “guerreiro em forma de tartaruga”, utiliza seu peso de forma devastadora, atacando em quatro apoios, enquanto Yayan Ruhian empunha suas habilidades de arco como um assassino, infligindo mil cortes de faca antes mesmo que seu inimigo tente bloquear um golpe.
O elenco magnífico de lutadores flui harmoniosamente através das sequências com a fluidez de um balé profissional, nunca dando uma pausa ou permitindo que o ímpeto diminua. “The Furious” opera como um jogo de “beat-‘em-up” à moda de “Streets of Rage”, com ambientes interativos e níveis que aumentam progressivamente em intensidade. Tanigaki encontra maneiras de manter o ataque constante de dor fresco e emocionante, desde batalhas com garrafas de cerveja a octógonos de MMA e duelos de bicicleta. Há até mesmo momentos onde as crianças participam da ação, ou pelo menos seus dublês, adicionando uma camada inesperada ao caos.
A dinâmica pai-filha entre Miao e Enyou é particularmente cativante, especialmente quando Rainy auxilia Wang Wei em combate como uma pequena ajudante. Essa justaposição, com Taslim combatendo vilões com a maestria de um chefe e Wang Wei atuando como protetor e instrutor enquanto Rainy contribui com golpes decisivos, gera momentos memoráveis. Quando os perigos se desdobram de forma inesperada, os personagens reagem com agilidade, e a audiência se beneficia de um espetáculo de ação contínuo e imprevisível. Não é exagero afirmar que “The Furious” exibe com confiança o que podem ser as melhores sequências de ação do ano. Com uma energia que remete a “Kill”, o filme de Tanigaki consegue ser cada vez mais furioso, superando os altos picos dos dois primeiros atos com um terceiro ato excepcional, onde os mestres do combate mostram todo o seu valor. A experiência é de uma satisfação ininterrupta, um desfile interminável de justiça com os punhos ensanguentados, sem qualquer diminuição no retorno da emoção.
Fonte: https://www.ign.com















