ZA/UM Justifica Semelhanças Entre Zero Parades e Disco Elysium: ‘Ainda Somos as Mesmas

Desde seu lançamento em 2019, Disco Elysium solidificou a reputação do estúdio ZA/UM como um inovador no gênero RPG, aclamado por sua narrativa profunda, sistema de habilidades singular e estilo artístico marcante. Agora, o estúdio prepara-se para lançar seu próximo título, Zero Parades: For Dead Spies, um RPG que, à primeira vista, exibe inegáveis paralelos com seu antecessor. Essa familiaridade, no entanto, surge em um contexto de controvérsia, dado o afastamento de figuras criativas chave de Disco Elysium em 2022. Fãs observam com cautela as similaridades de design, questionando a direção do estúdio. Contudo, em uma conversa recente, membros da equipe do ZA/UM ofereceram uma explicação para as escolhas de design, sublinhando que a continuidade se deve, em grande parte, à composição da equipe que permanece envolvida no desenvolvimento do novo jogo.

A Essência Compartilhada: Semelhanças de Design e Visão

Elementos Visuais e Narrativos

O vindouro Zero Parades: For Dead Spies apresenta de imediato uma estética e uma estrutura de jogo que remetem fortemente a Disco Elysium. A perspectiva isométrica, já icônica do trabalho anterior da ZA/UM, retorna, combinada com um estilo artístico igualmente impressionante e distintivo. A jogabilidade, como esperado de um RPG focado na narrativa, é intensamente pautada no diálogo. As conversas são exibidas verticalmente na lateral direita da tela, um formato que se tornou uma assinatura visual e funcional de Disco Elysium, permitindo uma imersão contínua nas interações dos personagens. Essa abordagem visual e de interface não é meramente uma escolha estilística, mas reflete uma filosofia de design que prioriza a riqueza textual e a profundidade da construção de mundo e personagem.

Além das semelhanças visuais, a estrutura narrativa de Zero Parades promete ecoar o tom e a profundidade de seu predecessor. O jogo almeja explorar temas profundamente políticos e introspectivos, mergulhando nas complexidades das relações de poder e nas falhas inerentes à condição humana. Este foco em narrativas densas e significativas é um pilar da identidade criativa da ZA/UM, e a manutenção dessa direção em Zero Parades sugere uma coesão filosófica que transcende projetos individuais, buscando constantemente desafiar e engajar o jogador em um nível intelectual e emocional.

Sistemas de Jogo Profundos

As semelhanças entre os dois títulos da ZA/UM estendem-se aos seus sistemas de jogo, que são fundamentais para a experiência imersiva e aprofundada que o estúdio busca oferecer. Zero Parades introduz um sistema chamado “Conditioning”, que guarda notáveis paralelos com o aclamado “Thought Cabinet” de Disco Elysium. No jogo anterior, o “Thought Cabinet” permitia que o protagonista internalizasse diversas ideias e filosofias, com cada “pensamento” oferecendo bônus ou penalidades que influenciavam habilidades e interações. O “Conditioning” em Zero Parades parece replicar essa funcionalidade, oferecendo um mecanismo para o jogador moldar a psique de seu personagem e, consequentemente, suas escolhas e a percepção do mundo ao redor.

Adicionalmente, o sistema de habilidades de Zero Parades manifesta-se como um monólogo interior consciente, um elemento que era central para a experiência de Disco Elysium. Neste novo RPG, as habilidades do personagem não são apenas estatísticas passivas, mas vozes internas que comentam as decisões do jogador, oferecem conselhos, por vezes conflitantes, e reagem ao ambiente. Essa personificação das habilidades cria uma camada adicional de narrativa e imersão, transformando a interface de RPG em uma parte orgânica da história. A presença desses sistemas complexos e inovadores sublinha a intenção da ZA/UM de não apenas construir um jogo com uma estética familiar, mas de aprofundar e refinar as mecânicas que tornaram seu trabalho anterior tão revolucionário. Essa repetição de conceitos não é vista como uma falta de originalidade, mas sim como uma evolução natural de ideias centrais que definem a abordagem única do estúdio ao design de RPGs.

A Controvérsia e a Continuidade da Equipe

As Saídas e as Acusações

O desenvolvimento de Zero Parades ocorre em meio a um cenário complexo para a ZA/UM, marcado por significativas mudanças internas. Em 2022, o diretor de jogo Robert Kurvitz e o diretor de arte Aleksander Rostov – figuras cruciais para a estética, a atmosfera e a visão de Disco Elysium – estiveram entre vários funcionários que deixaram o estúdio de forma “involuntária”. A ZA/UM, por um lado, afirmou que eles foram demitidos por má conduta. Por outro, Kurvitz e Rostov acusaram os acionistas majoritários da empresa de fraude, adicionando uma camada de litígio e incerteza à situação. Essa divergência de narrativas alimentou preocupações entre uma parcela considerável da base de fãs, muitos dos quais acreditam que os demitidos foram vítimas de uma conspiração corporativa.

A percepção de que esses talentos originais, essenciais para o reconhecimento de Disco Elysium, foram afastados de forma conturbada gerou apreensão. A comunidade de jogadores que se engajou profundamente com a narrativa e o estilo do primeiro jogo agora expressa ceticismo ao ver o estúdio desenvolver um sucessor aparente para Disco Elysium, utilizando fundamentos de design tão similares, mas sem o envolvimento direto desses criativos. A expectativa era de que, sem Kurvitz e Rostov, a ZA/UM pudesse buscar uma direção completamente nova, distanciando-se do legado do título anterior. No entanto, a manutenção de elementos tão específicos no design de Zero Parades levanta questões sobre a autenticidade da continuidade criativa e a verdadeira autoria da visão por trás do novo projeto.

A Perspectiva do Estúdio

Diante das preocupações da comunidade, Jim Ashilevi, escritor e diretor de voz da ZA/UM, ofereceu uma perspectiva clara sobre as escolhas de design de Zero Parades. Ele argumentou que adotar uma direção completamente diferente faria sentido apenas se a equipe fosse composta inteiramente por novos talentos. “Mas como um número tão grande dos principais jogadores que construíram Disco Elysium estão aqui para construir Zero Parades, simplesmente não fazia sentido para nós ignorar essa parte de nossa experiência como desenvolvedores de jogos e começar a aprender novas maneiras de contar histórias,” explicou Ashilevi, sublinhando a importância da expertise acumulada.

Allen Murray, chefe de estúdio da ZA/UM, estima que aproximadamente 35% da equipe atual do estúdio é composta por pessoas que trabalharam na versão original de Disco Elysium ou na edição expandida “Final Cut”, num total de cerca de 90 funcionários. Essa continuidade de pessoal é fundamental para a justificativa da ZA/UM. Ashilevi enfatizou a identidade coletiva e a paixão criativa que persistem: “Ainda somos as mesmas pessoas. Ainda temos os mesmos interesses. As coisas que nos interessam no mundo dos videogames, mas também em outras mídias – no cinema, na literatura e no teatro – isso não mudou.” Ele acrescentou que, embora esses interesses possam ter evoluído, a essência permanece a mesma. “Estamos basicamente seguindo nossa intuição e nossas próprias obsessões. E muito disso estava presente em Disco Elysium. Estará presente em Zero Parades também, em grande parte devido ao fato de que são as mesmas pessoas que estavam lá para construir aquele mundo incrível,” concluiu Ashilevi, reforçando a ideia de uma evolução natural e não de uma replicação vazia.

A Narrativa Futura: Zero Parades e o Legado da ZA/UM

A ZA/UM está firmemente empenhada em prosseguir com sua visão criativa, apesar das turbulências passadas e das reservas de alguns fãs. Nicolas Pirot, artista técnico líder do estúdio, expressou compreensão em relação à cautela de parte do público: “Entendo por que algumas pessoas podem ter reservas. Não cabe a mim dizer a elas o que pensar ou o que experimentar. Acho que o que estamos tentando fazer é contar uma história incrível.” Ele ressaltou que a esperança é que, quando Zero Parades estiver pronto, as pessoas o apreciem o suficiente para se engajar e descobrir a identidade do grupo que o criou. Jim Ashilevi reforçou essa mensagem, enfatizando o objetivo central do estúdio: “Estamos aqui para escrever mais histórias. É para isso que estamos aqui.” Ele reconheceu que a cautela ou o desapontamento de alguns são válidos, mas reiterou o convite para que o público experimente o novo jogo, que tem previsão de lançamento para este ano.

Zero Parades: For Dead Spies é um RPG de espionagem que se debruça sobre temas de lutas de poder e fracasso, buscando estabelecer sua própria identidade distinta, sem, contudo, “reinventar completamente a roda”. Esta abordagem reflete a confiança da equipe remanescente na sua capacidade de inovar dentro de um framework familiar. A aposta da ZA/UM é que a qualidade da narrativa e a profundidade de seus sistemas de jogo falarão por si, superando quaisquer apreensões iniciais. O lançamento de Zero Parades representa um momento crucial para o estúdio, onde não apenas buscará entregar uma experiência de jogo envolvente e instigante, mas também reafirmar sua identidade e sua visão criativa no cenário dos videogames, demonstrando que a paixão por contar histórias complexas e impactantes permanece viva e evoluindo, impulsionada pelas “mesmas pessoas” que moldaram seu legado.

Fonte: https://www.ign.com

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