A Montanha Sagrada: a Obra-Prima iconoclasta de Alejandro Jodorowsky no vasto e

A Gênese de um Cinema Inconvencional e Suas Raízes

Do Tremendismo à Espiritualidade Onírica

A trajetória de Alejandro Jodorowsky no cinema foi pavimentada por um profundo interesse nas franjas da experiência humana e na experimentação formal. Suas primeiras obras, como “Fando e Lis” (1968) e “El Topo” (1970), já demonstravam uma predileção por narrativas surreais e visuais impactantes. Esses filmes foram fortemente influenciados pelo dramaturgo Fernando Arrabal, cofundador do movimento Pânico, e pelo movimento literário espanhol conhecido como “tremendismo”. O tremendismo, uma escola de vanguarda que floresceu na Espanha, caracterizava-se pela busca incessante de seus artistas por conteúdos extremos, explorando as profundezas da alma humana em contextos de violência desmesurada, adultério e uma hipocrisia social generalizada. A cultura da oralidade e as tradições popularescas do interior da Espanha serviam como base para essa exploração visceral do lado mais sombrio da existência.

Em “Fando e Lis”, Jodorowsky já estabelecia as bases de seu estilo provocador, com uma estética brutalista e uma trama que desafiava a lógica. O filme, permeado por alegorias de submissão e libertação, chocou a audiência da época e foi censurado em diversos países. “El Topo”, por sua vez, levou essa exploração um passo adiante, mergulhando em uma odisseia mística e violenta que rapidamente o estabeleceu como um cult figure entre a contracultura da época, notadamente com o apoio e a admiração de figuras como John Lennon. Ambos os filmes, embora enraizados na miséria e na violência extrema, prepararam o terreno para a ambição espiritual de sua obra subsequente. Com “A Montanha Sagrada”, Jodorowsky não abandona sua busca pelo excêntrico e não convencional, mas redireciona sua lente. O foco migra da exploração da abjeção humana para uma profunda inquirição sobre a espiritualidade e o ecumenismo da sociedade hispânica, sob a ótica de crenças populares e tradições que raramente encontram registro em tratados de Antropologia ou Sociologia.

A produção de “A Montanha Sagrada” foi um empreendimento monumental, com Jodorowsky atuando como diretor, roteirista e protagonista, uma figura quase demiúrgica que molda a própria narrativa. O filme, financiado em parte por John Lennon e Yoko Ono, tornou-se um ícone do cinema psicodélico e da contracultura dos anos 70, exemplificando a liberdade criativa e a busca por novas formas de expressão que caracterizavam a era. Sua realização foi permeada por práticas espirituais e rituais com o elenco, incluindo períodos de jejum e meditação, buscando uma autenticidade que transcendessem a mera atuação, transformando a própria filmagem em uma jornada iniciática para todos os envolvidos. O cineasta chileno desafiou as convenções de Hollywood, criando uma obra que se recusava a ser categorizada, consolidando-se como um pilar do cinema de arte e um expoente da “psicomagia” na tela.

A Montanha Sagrada: Simbolismo, Espiritualidade e Provocação Extrema

O Alquimista e a Desconstrução de Dogmas

“A Montanha Sagrada” é uma tapeçaria rica em simbolismo, onde cada imagem e personagem carrega múltiplas camadas de significado. Jodorowsky cria a figura central d’O Alquimista, uma entidade supra-religiosa que transcende as concepções divinas convencionais. Este ser enigmático detém o poder de controlar figuras como Jesus Cristo e Buda, manipular cartas de tarô, influenciar a população local e, em última instância, a espiritualidade do Planeta Terra. A narrativa se desenrola em uma pequena cidade do interior do México, que serve como um microcosmo da humanidade, um palco para a desconstrução e reconstrução de crenças. É neste cenário vibrante e caótico que Jodorowsky explora a intersecção entre o sagrado e o profano, o sublime e o abjeto, através de uma estética que é ao mesmo tempo chocante e hipnotizante.

Logo no início da trama, o espectador é transportado para uma realidade iconoclasta, especialmente no que diz respeito à religião católica. A imagem de Cristo é retratada de maneiras chocantes e provocativas: como moldes de bolos de festa infantil, que são destruídos pela população em um espetáculo de incivilidade que remete à violência de cidades pobres. Mais adiante, Cristo surge como um pedinte abandonado, coberto de moscas, rodeado por anões, pessoas com deficiência e esmoleiros nus. Essa representação, que mescla o circense, o blasfemo e o grotesco, converge para o popular e, em certa medida, para o dantesco. A intenção de Jodorowsky é expor o que há de mais repulsivo na sociedade contemporânea, desafiando a idealização de figuras sagradas e expondo a crueza da existência humana. A iconoclastia do filme não é um mero ato de provocação, mas uma tentativa de quebrar as barreiras das percepções pré-concebidas, forçando uma reavaliação dos valores espirituais e sociais. A crítica à hipocrisia institucionalizada e à comercialização da fé é manifesta, convidando o público a buscar uma espiritualidade mais autêntica e menos dogmática.

A Jornada de Transmutação e o Despertar Espiritual

O Jesus Cristo de Jodorowsky é, inicialmente, um ladrão em busca de pepitas de ouro, ansioso por galgar uma posição na sociedade através do enriquecimento fácil. Sua imagem é a de um títere, uma marionete controlada de forma vil e espalhafatosa por uma super-entidade, O Alquimista, como em um teatro de mamulengos. O destino desse “boneco” parece traçado por um plano imutável. Para romper esse liame e atingir a aura divina, o ladrão, que também é visto como um pecador – especialmente ao se envolver com uma andarilha que remete à figura de Maria Madalena –, precisa despertar seu verdadeiro papel como um homem celestial. Esta transformação é a essência da jornada heroica apresentada por Jodorowsky, onde a redenção não vem da submissão, mas da transcendência das próprias limitações e das imposições externas.

Para expiar seus pecados e alcançar a iluminação, ele enfrenta uma série de provações impostas pelo Alquimista, culminando na escalada de uma montanha íngreme e inacessível. Chegando ao cume, em um ato de profunda simbologia de desapego e transmutação, o ladrão defeca no ambiente. O Alquimista, então, transforma seus excrementos em ouro, aceitando-o como aprendiz. Este ato aparentemente chocante simboliza a capacidade de transformar o abjeto em algo precioso, a imperfeição em virtude, a matéria em espírito, remetendo aos princípios alquímicos de transmutação e purificação. Para sua jornada de mestria, o ladrão é acompanhado por vários deuses planetários – Vênus, Marte, Júpiter, Netuno e Plutão, cada um representando um aspecto da psique e da sociedade humana –, em uma viagem guiada pelo Alquimista para que todos encontrem a verdadeira espiritualidade. Ao chegarem ao destino final, a entidade revela que todos estão preparados para a “vida real”, uma conclusão que desafia as expectativas e convida à introspecção sobre a natureza da própria existência e da percepção da realidade, sugerindo que a verdadeira iluminação não está em um fim físico, mas em uma nova forma de viver e perceber o mundo.

A Montanha Sagrada: Uma Conclusão Contextual e um Legado Duradouro

Através de um figurino excêntrico e luminoso, e uma fotografia peculiar repleta de tons auríferos, Alejandro Jodorowsky constrói em “A Montanha Sagrada” uma obra cinematográfica coesa e profundamente sincrética do ponto de vista artístico. A experiência visual e narrativa é inegavelmente lisérgica, imergindo o espectador em um transe de cores, símbolos e rituais que desafiam a compreensão linear. O filme se manifesta como uma complexa alegoria, um ritual fílmico que transcende o entretenimento para se tornar uma jornada iniciática, tanto para os personagens quanto para o público que se aventura a decifrá-lo. A maestria de Jodorowsky reside em sua capacidade de conjugar elementos díspares — da alquimia ao cristianismo, do budismo ao ocultismo — em uma tapeçaria visualmente deslumbrante e intelectualmente instigante.

A interpretação de “A Montanha Sagrada” é multifacetada e resiste a definições simplistas. À primeira vista, pode-se perceber apenas uma blasfêmia pura e simples, uma afronta direta às convenções religiosas e morais. No entanto, ao se aprofundar na proposta cinematográfica de Jodorowsky, o espectador descobre camadas de profundidade que vão muito além da superfície. O filme sugere que um indivíduo isolado, que se considera acima das convenções sociais, tem o poder de manipular até mesmo figuras divinas para alcançar seus objetivos, uma reflexão sobre o poder da crença e da manipulação social. Além disso, a narrativa propõe que as provações e desafios pelos quais uma pessoa deve passar são capazes de quebrar paradigmas estabelecidos por uma sociedade que incessantemente busca impor padrões graníticos e, muitas vezes, opressores. Essa é a essência da iconoclastia jodorowskiana: não apenas destruir ícones, mas desvelar as verdades subjacentes a eles, provocando uma reavaliação radical do que se considera sagrado ou profano.

“A Montanha Sagrada” não é apenas um filme; é uma declaração filosófica e artística sobre a busca pela iluminação, a desconstrução da idolatria e a redefinição do sagrado. Jodorowsky convida o público a olhar para o divino no mundano, a encontrar a verdade naquilo que é considerado impuro e a questionar todas as autoridades, sejam elas religiosas, sociais ou artísticas. Sua obra permanece como um testemunho da capacidade do cinema de ser uma ferramenta para a introspecção e a transformação, um espelho que reflete as complexidades da condição humana em sua busca incessante por significado e autenticidade. O legado de “A Montanha Sagrada” reside em sua audácia em desafiar, sua beleza em chocar e sua profundidade em fazer pensar, solidificando seu lugar como um dos filmes mais iconoclastas e relevantes da história do cinema experimental e um divisor de águas na carreira do mestre Alejandro Jodorowsky.

Fonte: https://www.naoeimprensa.com

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