O Universo Poético de Guilherme de Almeida e a Cidade Neolítica
“Na Cidade da Névoa”: Ecos de Melancolia e Introspecção
O “mundo poético” de Guilherme de Almeida, conforme atestado por especialistas em literatura, é, de fato, um vasto cosmos que se estende aos infinitos do pensamento e do sentimento humano. Essa universalidade e perenidade são marcas de um autor que almejava ser Poeta acima de tudo, fazendo da criação a matéria e a forma de seu gênio. Em “Na Cidade da Névoa”, uma de suas obras de juventude, publicada entre 1915 e 1916, essa amplitude se manifesta plenamente, especialmente no poema-título. Ali, o eu-lírico se expressa através de elucubrações e suspiros melancólicos sobre uma localidade indefinida, mas palpável em sua atmosfera de tristeza.
A profundidade introspectiva e quase confessional da obra de Almeida encontra um paralelo notável no trabalho de T.S. Eliot, laureado com o Nobel de Literatura. O clássico poema “The Waste Land”, de 1922, ressoa com o teor melancólico de “Na Cidade da Névoa”, especialmente na forma como ambos os autores abordam o mês de abril. Nos versos de Almeida, o “mês de abril empoa os céus de cinza e pinta / as árvores de cromo. O mês de abril tem trinta / quartas-feiras-de-cinza: e a cidade desfia”, culminando na imagem de um “cinzento mês de abril, ó mês tuberculoso! A cidade parece o asilo silencioso”. Essa visão sombria do período reflete um ambiente aziago que permeava a sociedade.
De forma similar, Eliot, em sua representação devastadora da dor coletiva pós-Primeira Guerra Mundial, inicia “The Waste Land” com a famosa constatação de que “abril é o mais cruel dos meses, germina / lilases da terra morta, mistura / memória e desejo, aviva / agônicas raízes com a chuva da primavera”. Essa convergência de imagens e sentimentos entre os dois poetas, um brasileiro e um anglo-americano, revela uma sensibilidade compartilhada sobre a capacidade de um período específico de tempo de espelhar o sofrimento universal e a introspecção profunda, característica marcante da modernidade e da análise da fortuna crítica de Almeida.
A Cidade como Musa: Imagens e Símbolos na Obra de Juventude
Da Alma da Rua aos Casarões: A Metrópole em Verso
O ethos introspectivo e por vezes fantasmagórico que permeia “Na Cidade da Névoa” estende-se a outros poemas da coletânea, onde a metrópole é elevada à condição de musa e protagonista. Em “A Alma da Rua”, por exemplo, Almeida confere vida própria ao espaço urbano, afirmando que “a rua vive: a rua sofre, a rua goza.” Esta personificação estabelece uma crença inabalável na “alma misteriosa” da rua, que sussurra seus “pecado[s], a sua / miséria…” ao poeta, acompanhada pelo murmúrio do vento, em versos de terza rima que acentuam a musicalidade e o mistério da experiência urbana.
Em “O Altar de Pedra”, a melancolia se aprofunda, tingida por nuances de um proto-surrealismo. O eu-lírico se debruça, “entristecidamente, / ao meu velho balcão de velhos balaústres”, transformando o balcão em um confidente silencioso. É ali que, como um “pecador arrependido”, ele confessa suas “íntima[s] desgraça[s]”. A multidão que passa “cabisbaixa e infeliz” serve, paradoxalmente, de consolo, uma comunhão na dor que é a própria essência da experiência urbana de Almeida.
A atmosfera taciturna e a conexão íntima entre o poeta e a cidade são novamente evocadas em “Oh A Cidade à Noite”. Aqui, a monotonia das “linhas retas e das luzes perfiladas” contrasta com o “mistério das fachadas / onde uma porta escura é uma órbita vazia”, revelando a cosmogonia pessoal do poeta em relação ao espírito do lugar. A cidade noturna torna-se um vasto campo para a reflexão sobre o vazio e o desconhecido, um espelho das emoções interiores do observador.
A natureza, em “Estas Chuvas”, atua como um catalisador das emoções urbanas. Após as “chuvas melancólicas”, a cidade adquire “um ar de limpeza e de convalescença”. No entanto, a aflição persiste, e o vento que “sacode” a metrópole provoca “acessos de tosse e ameaças de vertigem”, metaforizando a doença e o spleen, um mal-estar característico da modernidade. A “enxurrada que sair pelos poros da rua” e a “transpiração aborrecida e fria” intensificam a sensação de neurastenia e mal-estar que a urbe inspira no eu-lírico, em uma profunda simbiose entre paisagem e emoção.
Outras poesias, como “Os Combustores”, “Os Mostradores”, “As Torres” e “Os Casarões”, complementam essa visão multifacetada da cidade. Nelas, o esplendor da vida urbana é confrontado com uma perspectiva mais fatalista, antecipando o progresso acelerado do início do século XX. Almeida emprega ricas simbologias: os combustores são “uma ordem singular de monges cismadores”; os mostradores, “olhos sem vida, olhos de morte, olhos vidrados”; as torres, “sonora habitação das aves e dos sinos”; e os casarões, “como as roupas velhas”. Cada elemento arquitetônico e social é investido de um significado profundo, refletindo a alma da metrópole em constante transformação, evidenciando a meticulosidade de sua fortuna crítica.
A Conquista da Metrópole e a Perenidade da Alma Humana
A culminação dessa exploração da cidade e da alma humana é notavelmente alcançada na poesia “Os Tísicos”, uma peça monumental que captura o espírito moribundo de uma das figuras mais emblemáticas da cidade no início do século XX: o tuberculoso. Em uma poderosa narração em primeira pessoa, Guilherme de Almeida adota a perspectiva de um médico que lida com os pacientes e as agruras urbanas, revelando a crueza da vida. Os versos “o vento faz tossir os pobres infelizes / dos seus leitos de pedra iguais e paralelos / eles lançam então em longas hemoptises / golfadas outonais de folhas amarelas…” pintam um quadro vívido da fragilidade humana diante da doença e da indiferença da metrópole.
A tragédia da epidemia é contextualizada na “rua acabrunhada e fria”, onde a “deliquescência” e as “vertigens suaves” dos enfermos evocam uma resposta de compaixão e melancolia por parte do observador. O “riso de consolo, o riso de piedade” expressam a complexidade emocional diante do sofrimento alheio, uma mistura de empatia e resignação que permeia a obra de Almeida. Esta poesia não apenas documenta uma realidade sanitária da época, mas eleva o tema a uma reflexão universal sobre a vulnerabilidade e a condição humana, consolidando a importância de sua obra no panorama literário.
Diante de toda a análise, percebe-se que Guilherme de Almeida traça, em suas tessituras poéticas, um sentimento intrínseco de pequenez e melancolia que permeia o ser humano. A cidade, transfigurada em musa de seus “cantos fúnebres”, torna-se um elemento quase determinista para o desenvolvimento de um sentimento taciturno, explorando as camadas mais obscuras da alma. Sua obra, ao invés de meramente descrever, imerge nas profundezas da experiência urbana e existencial, consolidando uma fortuna crítica que o posiciona como um dos maiores intérpretes da sensibilidade moderna. Através de sua pena, a metrópole não é apenas cenário, mas um espelho complexo onde se refletem as angústias e belezas de sua época e, por extensão, da perene condição humana.
Fonte: https://www.naoeimprensa.com














