A Gênese e o Paradoxo do Multilateralismo no Cenário Global
A Visão Kantiana e sua Reinterpretação: Em Busca de uma Paz Eterna
A busca por uma ordem internacional estável e pacífica não é um anseio recente, mas um ideal com profundas raízes filosóficas. O pensador iluminista Immanuel Kant, em sua obra seminal “Zum ewigen Frieden” (1795), delineou um caminho para a paz. Contrariamente à interpretação popular que sugeria uma “Paz Perpétua” como um estado final e inatingível, a análise mais acurada de “Zum” indica um “rumo” ou “construção” da paz – um processo contínuo, racional, complexo e intrinsecamente frágil. Kant, longe de ser um otimista ingênuo, compreendia que a paz não era um desejo natural humano ou um destino inevitável, mas sim uma conquista árdua, dependente de ações racionais e não de meras intenções benevolentes. Para ele, a estabilidade global exigiria a construção de estruturas legais e a adoção de princípios republicanos, mas nunca eliminaria a necessidade de vigilância e esforço contínuo para sua manutenção.
Após as devastações da Segunda Guerra Mundial, o mundo assistiu à concretização institucional dessa busca por ordem. A Conferência de Bretton Woods, em 1944, e a subsequente criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e suas agências, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, simbolizaram a esperança de um novo paradigma de cooperação internacional. Essas instituições foram concebidas como plataformas para o debate, a negociação e a promoção de boas intenções, visando prevenir futuros conflitos e fomentar a colaboração em diversas áreas, da economia à segurança. A premissa subjacente era que, através do diálogo e da adesão a normas coletivas, os Estados poderiam mitigar suas rivalidades e construir um sistema de segurança coletiva baseado no Direito Internacional. No entanto, essa visão idealizada rapidamente se chocou com a realidade geopolítica da Guerra Fria, onde o medo do apocalipse nuclear e a polarização ideológica moldaram as relações internacionais mais do que quaisquer resoluções ou tratados multilaterais.
A ilusão, portanto, não residia na existência dessas instituições, que de fato construíram arcabouços importantes para a interação global e evitaram uma série de conflitos, mas na crença de que elas poderiam, um dia, substituir completamente o poder soberano e unilateral dos Estados. Teóricos realistas das Relações Internacionais, ao longo da história, sempre argumentaram que a paz pós-guerra não era primariamente um produto da diplomacia multilateral ou do idealismo, mas sim do equilíbrio de poder e da dissuasão. A capacidade nuclear das superpotências – Estados Unidos e União Soviética – era vista como o verdadeiro garante da “longa paz”, e não a assinatura de papéis ou a retórica de cooperação. Essa perspectiva realista, que prioriza os interesses nacionais, a segurança e a capacidade militar, parece hoje mais pertinente do que nunca, à medida que a ordem global experimenta tensões renovadas e desafios à sua estrutura fundamental, expondo as limitações de uma abordagem puramente multilateralista.
Crise e a Ascensão do Realismo Geopolítico no Século XXI
O Cenário Geopolítico Atual e o Desafio às Normas Internacionais
Os eventos recentes na cena global têm desnudado as fragilidades do ideal multilateralista, revelando que a lógica do poder soberano ainda prevalece em momentos de crise. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 é um exemplo contundente. Moscou justificou suas ações com argumentos eminentemente geopolíticos, citando a expansão da OTAN para suas fronteiras ocidentais como uma ameaça existencial. A proximidade de um adversário nuclear a apenas 700 quilômetros da capital russa, a uma distância de voo de mísseis modernos de poucos minutos, foi apresentada como uma linha vermelha intransponível para sua segurança nacional. Embora a violação do Direito Internacional e da soberania ucraniana pela Rússia seja inquestionável, a resposta global a essa agressão, pautada por sanções econômicas e apoio militar à Ucrânia, revelou os limites da capacidade das instituições multilaterais em impor suas normas quando confrontadas com os interesses estratégicos de uma grande potência. A intervenção direta ou a reversão da situação por meio de mecanismos multilaterais efetivos mostrou-se inviável, sublinhando que a “lógica do território” e do poder bruto muitas vezes prevalece sobre os preceitos legais e as boas intenções.
Do outro lado do espectro ideológico, a postura dos Estados Unidos, mesmo sendo o arquiteto principal da ordem multilateral pós-guerra, demonstra uma flexibilidade pragmática em relação a esses arranjos. Apesar de promoverem o multilateralismo e a cooperação, os EUA nunca abriram mão de seu vasto poder militar, o maior do mundo, com uma frota de porta-aviões incomparável e um arsenal nuclear dissuasório. Figuras políticas como o ex-presidente Donald Trump, com sua retórica “America First” e ações unilaterais, expuseram abertamente a primazia dos interesses nacionais americanos, questionando acordos e instituições globais. A percepção de que a “ordem mundial baseada em regras” foi destruída pelos EUA é, para alguns analistas, uma falácia, pois essa ordem nunca existiu de forma puramente consensual e sim como um reflexo da hegemonia americana. Ações estratégicas sem “pudores” excessivos, como a potencial desconsideração de compromissos ou a imposição de agendas, indicam que a nação mais poderosa do planeta opera, em última instância, de acordo com seus próprios imperativos de segurança e prosperidade, independentemente das críticas ou dos compromissos multilaterais percebidos, reconfirmando a premissa de que o poder concreto é o alicerce de sua política externa.
A ascensão da China também reforça essa tese do realismo geopolítico. O país se beneficiou imensamente das regras da globalização e do multilateralismo para ascender à condição de potência econômica. No entanto, sua crescente projeção de poder militar – com a expansão de sua marinha, incluindo múltiplos porta-aviões, e o aumento significativo de seu arsenal nuclear – sinaliza que, para Pequim, a influência global não se constrói apenas por meio do comércio e da diplomacia, mas também pela capacidade de projeção de força. A adesão “by the book” às regras do jogo global foi um trampolim para o desenvolvimento, mas a realidade da competição geopolítica exige o desenvolvimento de capacidades que garantam os interesses nacionais em um cenário onde a segurança e a soberania são percebidas como intrinsecamente ligadas ao poder militar. Essas dinâmicas globais evidenciam que, apesar das estruturas multilaterais, os Estados-nação continuam sendo os atores primários e, em momentos de crise, a lógica do poder e dos interesses soberanos dita o curso da ação, desafiando a premissa de que o multilateralismo pode transcender as aspirações nacionais.
O Retorno à Realpolitik e a Ordem Mundial Inerente
Diante da dissolução dessas ilusões, o mundo contemporâneo se apresenta não necessariamente mais perigoso do que em épocas passadas, mas indubitavelmente menos iludido. A retórica sobre uma “ordem mundial baseada em regras” que estaria sendo destruída, na verdade, ignora uma verdade fundamental e persistente nas relações internacionais, tão antiga quanto a Guerra do Peloponeso, descrita por Tucídides há mais de 2.500 anos: os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem. Essa máxima implacável, que descreve uma ordem baseada no poder e nos interesses nacionais, continua sendo a espinha dorsal da geopolítica global. A violação do Direito Internacional e a ineficácia das respostas multilaterais em certos contextos críticos servem como lembrete de que, apesar dos avanços na cooperação e na interdependência, a soberania e o poder coercitivo dos Estados permanecem os fatores determinantes na configuração da segurança e das interações internacionais.
A aceitação dessa realidade, por mais amarga que seja para aqueles que acalentam ideais de uma governança global utópica, pode paradoxalmente levar a um cenário mais racional e pragmático. Ao reconhecer que a segurança não reside primariamente em acordos no papel ou em boas intenções, mas no equilíbrio de forças e na capacidade de defesa dos interesses nacionais, os Estados são compelidos a uma abordagem mais realista e menos idealizada. Isso não significa um abandono completo da diplomacia ou da cooperação, mas sim uma compreensão de seus limites e de seu papel subsidiário em face da lógica do poder. A ilusão, nesse sentido, pode ser o principal vetor da insegurança, gerando expectativas irrealistas e, consequentemente, frustração e vulnerabilidade em face de crises. Um mundo menos iludido é um mundo que, embora talvez mais cínico, opera com uma clareza maior sobre as verdadeiras fontes de poder e influência, fomentando uma “realpolitik” que, por sua franqueza, pode, de fato, conduzir a uma maior estabilidade e previsibilidade nas relações internacionais, ainda que não necessariamente à justiça universal ou à utopia da paz perpétua.
Fonte: https://www.naoeimprensa.com











